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quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

Conto de Natal de Fialho de Almeida


Conto do Natal


Há de passar talvez das onze horas. A noite afinal pôs-se serena, não bole vento, as solidões escutam... – é como se a terra inteira estivesse à espreita de ouvir tocar o sino para a missa. Pela estrada que passa entre Vila de Frades e Vidigueira, vem descendo uma velha arrumada ao seu bordão de pobrezinha. O rastejo dos passos dir-me-ia porventura a idade dela: o luaceiro entanto, nuverinhado em céu de bruma, apenas deixa aperceber a silhueta curvada para a terra, com um pedaço de manta sobre os ombros, o saco às costas, e as canelas sem meias, entrapadas em ligaduras repelentes. Ao pé da ponte a mulher para. Por detrás daqueles choupos, lá em baixo, à beira-rio, havia noutro tempo um forno de tijolo, agora pelo Inverno abandonado. Ela adianta-se, procura... A estrada passa de alto, ladeada de acácias e eucaliptos. E derredor, nos plainos baixos, as escavações do barro espapam-se nas águas da cheia, em lúgubres lameiros, cuja ervançum dá residência a uma colônia rouca de sapos.

A velha estende o bordão para a barreira, procurando vereda num chão firme, em cujo barro os seus pobres sapatos rotos não mergulhem.

Malgrado o embrutecimento da idade, o frio, a fome e o desejo de amosendar para ali, no forno de tijolo, longe das apupadas dos cães e dos rapazes, uma nostalgia poética ergue-lhe a vista, e então recorda-se, e quer circunvagar os seus cansados olhos para o largo. É uma esquelética paisagem de dezembro, nua e cansada, quando já a natureza se alquebra toda em desalentos, e os troncos das árvores parece que estrebucham, como os famintos de Londres, numa bebedeira de ódio, truculenta. No primeiro plano há terras de vinha, olivais muito negros e colinas redondas com moinhos. Para as bandas da Vidigueira risca a neblina um traço negro, que deve ser a torre do relógio – depois, à direita, uma mancha de cal, o cemitério. Lentamente, à medida que o raio de visão se prolonga no horizonte, os outeiros complicam -se, as formas perdem sua delineação traço por traço, e toda a cordilheira dir-se-ia pintada numa sucessão de panos de teatro, a cinza-claro, e gradações mais e mais desvanecidas.

Oh, que sossego! Uma divina essência, abstrata, etérea, vem oscular as urzes e as levadas. Do seio das negridões, de quando em quando, brotam suspeitas de formas vagabundas, a branco-cinza esboços de sonhos, almas erráticas que debandam, noitibós que se acolhem, friorentos na noite, às pedras das ruínas... Vem um acorde triste dos cardos secos da margem dos alqueves, dos pilriteiros sem folhas e dos zambujos frugais das ribanceiras. E as águas do ribeiro troam nas pedras, por entre as canas e os choupos, cujas varas se esfalripam nos ares, tísicas e brancas, com um ou outro corvo por folhagem.

Da outra banda são semicírculos de terras e valados, com freixos altos em silhueta no tom madrepérola da lua, e alternativas de negro e zonas claras, que dir-se-iam feitas num desenho a carvão, com lápis prateado.

Todas aquelas brancuras vêm do extremo horizonte aos olhos da mendiga, por suspeitas, desagregadas das formas, abstraídas do resto da paisagem, e todas poderiam interpretar -se como efeitos de neve, de luar, de água dormente, tanto a neblina enche de fantasmagorias a noite e presta uma alma incoerente àquela cenografia de balada.

Há porém no sopé daqueles montes um ponto que a velha ansiosamente procura. É o pequenino convento de capuchos que alveja da banda de Vila de Frades, derrocado, entre oliveiras. Lá corre o muro da cerca, até se perder num grupo de ciprestes. Naquela cerca, já depois de profanado o conventinho, era antigamente o cemitério: um cemiteriozinho de aldeia, com malmequeres e figueiras bravas, crânios à solta, e nenhuma cruz ou mausoléu comemorando a jazida de qualquer. Ali repousam os parentes e amigos da pedinte, pais e irmãos, filhos e netos: só ela, errante de povo em povo, sem um afeto que a proteja, sem uma boca amiga que a console, vai pelo mundo a mendigar de porta em porta!

Vinte e dois anos passaram depois que ela abalou da sua terra, e quatro ou cinco vezes lhe sucedeu passar ali como estrangeira, com os olhos no chão, corrida de vergonha, vendo a igreja aberta e tendo medo de entrar, passando ao resvés das casas ricas, e arreceando-se de pedir esmola à criadagem; e depois, ao toque das Trindades, noite fechada, detendo-se a escutar de longe os conhecidos rumores do lugarejo. Oh, essa chafranafra da volta do trabalho, com guizadas de mulas tintinando, estrupidas de carros desferrados, e as boas-noites trocadas, os cavadores cantando em coro pelos caminhos, a crepitação da lenha nas lareiras – e depois, no bocal das fontes, o mulherio que pousa os cântaros e entre risotas comenta as picarescas histórias da semana!

É quando numa melancolia doce o dia morre, e grandes nuvens esmagam no poente as vermelhidões crepusculares. É quando uma exalação envolve as cúpulas das árvores e, das terras molhadas, claridades efémeras fosforejam, e uma voz corre e suspira à flor das ervas.

Pois acabou-se, acabou-se! E a triste da mulher desce a barreira, agredida por tudo, as recordações, a noite, o frio, a fome... Não, não repousará entre os demais, no pobre cemitério da sua aldeia, em que avoejam corujas e francelhos: a casa onde nasceu foi demolida: arrancaram a vinha que o marido plantara, há cinquenta anos, com solicitudes de bom cultivador: e ninguém na vila já se recorda da Josefa, da viúva do Pratas, mãe duma filha bonita que anda agora nas feiras, de cigarro, e passa o Inverno em braços de soldados, numa viela infame de Estremoz. Ao acercar-se do forno, uma claridade viva a surpreende. O alpendre ficava do outro lado, numa descaída brusca do montículo, e ali está gente, há falas de homem... – ai pobre velha! aonde há de ela ir passar a noite àquela hora?

Por um momento ainda ela faz um passo para costear o forno, e ir pedir agasalho à fogueira de quem quer se acoite no telheiro. Mas logo em seguida reflete. Que qualidade de gente será? Recebê-la-ão com caridade? Um vago terror se apossa dos seus membros: pé ante pé busca afastar-se... Mas como tem as pernas e os braços regelados! Um torpor lhe paralisa os movimentos, anestesia-lhe os dedos, e pesa-lhe nas pálpebras com sonolências de chumbo. Nos campos paira um sossego terrível e perverso, em cuja abóbada se respondem os latidos dos cães, pelas malhadas. A geada branqueia o alqueve das courelas, queima os favais. E a claridade no alpendre é cada vez mais confortante, milhares de faúlhas sobem pelos ares, na fumarada da lenha úmida de oliveira, que estala e arde em flamazinhas rápidas e alegres. Ela então cede, resolvida a entrar na zona iluminada, e a pedir agasalho aos forasteiros que a anteciparam.

Chegara quase à boca do telheiro, oculta ainda por trás dum grupo de árvores, perto do rio – quando de repente estruge um grito largo, começado em surdina, e sacudido depois em frenéticas uivadas, com uma expressão de sofrer dilacerante.

Ao primeiro berro, um homem que estava acocorado por diante da fogueira, salta de golpe, e fica um instante secado, à escuta da noite, bebendo os rumores do largo, enquanto desenrola a cinta da cintura. Aquele berro, a velha conhece-o, é horrível e terno, angustioso e delicado, e toda a mulher que o solte principia esposa e acaba mãe.

Havia pois no alpendre uma parturiente a reclamar os seus cuidados. O desejo da velha era correr, mas do seu canto de sombra a pobre hesita, vendo o homem girar pelo telheiro a passos furiosos, ir, voltar, acachapar-se instantes sobre o vulto que bole lá no fundo do alpendre, em estremeções aflitos: e enfim, jurar, bramar, ordenar-lhe silêncio, prometer-lhe pancada, exasperado cada vez mais, por aquela algazarra que pode deitar tudo a perder.

Há um momento em que eles cuidam ouvir um murmúrio de rodas, afastado, talvez uma sege que passa, levando alguém à missa de Natal. Aqui a raiva do homem não conhece limites, e ei-lo corre à mulher de punho armado, prestes a dar -lhe, caso prossiga o berreiro escandaloso. Vem, com efeito, na estrada uma berlinda, com guizadas nas mulas, e vermelhidões de lanternas entre as árvores. E o homem precipita-se, enclavinha os polegares assassinos sobre a garganta da mulher.

– Calas-te ou morres!

E a sua voz surda, pequena, sacudida, humilde quase, vem explosindo e crescendo, até bravejar num rouquejo de cólera exaustinada – Cala-te, diabo, Cala-te, estafermo!

A mãe, coitada, mal pode estrangular os urros que a expulsão lhe arranca, em dores medonhas, como se trinta mãos brutais lhe estivessem arrancando as vísceras, ligamento a ligamento. Já a berlinda passa, ao trote rápido das suas quatro mulas espanholas... um ou outro corvo solta nas faias o seu grasnido estremunhado, e outra vez a paisagem fica muda, entre as brumas e as sombras, o fragor da ribeira, e a uivadados cães pelos currais. É esse o instante de a mendiga fazer um passo, abandonando o círculo da sombra, prestes a dar-se, toda cheia de celestes compaixões por essa mísera mulher que a desgraça forçou a vir parar numa ruína, sem ao menos ter a aquentá-la, como a Virgem, o hálito da vaca e da jumenta, e as solicitudes ideais do carpinteiro.

Mas tudo aquilo é rápido e fugace. Os gritos da mulher tinham cessado: lento e sinistro, o homem voltara a acocorar-se perto da fogueira, com uma expressão de campônio perverso, meia animal, meia humana, onde o brilho dos olhos punha uma sagacidade extraordinária. Ele despira a jaqueta, tem as mangas da camisola arregaçadas, as mãos sujas de sangue...

– É rapariga ou rapaz? – disse a mulher.

Ele estivera algum tempo a ligar-lhe coa cinta o ventre dolorido: não retrucou. Dera na torre da Vidigueira a meia-noite, e em Vila de Frades logo começou a tocar para a Missa do Galo. O cerraceiro morrera pelos campos, e as cumeadas do céu, azuis e vastas, refulgiam de estrelas e luar. Coisas opacas brotavam dos terrenos, formas dormentes, que pareciam vaguear nas ouvielas moles dos farrejais.

Perto, nos choupos, havia gestos de angústia e imploração; saíam vozes da água, preguiçosas e místicas como trenos, e certas troncagens tinham expressões humanas na noite, que perturbavam de morte o arregaçado.

Outra vez então aquele homem se ergueu com modos lentos, veio escutar. Os sapos tinham-se afinal calado nos algares, pairavam no sossego as asas áfonas dos mochos dando espirais de roda ao forno de tijolo. E mau grado o frio, aquela noite de Natal vinha suave, com poucas cores mas delicadas, e cambiantes de céu, que o vento, uma após outra, transmutava.

– Dá-me a criança... – disse a mulher. – Quero-lhe dar mama, não me morra de frio, a pobrezinha!

Ele tinha nas mãos o pequeno ensanguentado, que vagia de frio, conjugando os beicitos numa sucção de instinto, que devera ter feito sorrir de enternecido um outro pai. E saiu do telheiro, o pequeno pendente da manápula, o cenho torvo, o ar facinoroso.

A velha, vendo-o, estendera-lhe os braços do seu canto: e ele vagueou assim por aqui, por além, entre os troncos das faias e os silvados, atascado na lama, mas sem poder estar quieto em parte alguma, e como se pela marcha desse vazante ao frenesi mental que o devorava.

Havia à beira da água um pedregulho. Ele deteve-se. Instantaneamente a sua cara envelhecera, leques de rugas radiavam-lhe dos cantos das pálpebras, sobre a pele da testa e da faceira, e a lívida boca, agora seca, súplice quase, tinha sombras de angústia às comissuras, e convulsivos tremores nos beiços desbotados.

Mais uma vez lançou a vista ao derredor, numa suspeita atroz de o estarem vendo, e ergueu o braço, com o pequeno seguro pelos pés, como um coelho... Porém a luz do luar incomodava-o.

Tornara para trás, desalentado, furibundo consigo, e resmungando alto imprecações. Mas veio-lhe de repente uma veneta, e bruscamente, com um resfolegar de bezerro, escavacou o pequeno contra a rocha. A pancada dera na pedra um som de melancia podre, esborrachada, em surdina, baça e turgente. Foi um momento, aquilo, e todas as coisas voltaram ao êxtase hibernal de instantes antes.

O homem ainda esteve curvado um pouco de tempo, sobre os atasqueiros glácidos do rio – uma solenidade pairava ao fundo do espaço – até que afinal saiu das ervas, com o cadáver suspenso pelos pés, todo sangrento, um cadaverzinho de infante recém-nado, roliço e roxo, cuja boquinha fria de inocência, e cuja alma devera estar-se incorporando àquela hora no cortejo de eleitos, que todos os anos vem, com o menino Deus, refazer na crença dos simples a suavíssima lenda de Natal.


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Fialho de Almeida, em “O País das Uvas” (1893)
Desenho de Euclides (Revista Vamos Ler!, 18/12/1941)

Fonte:
Contos de Natal portugueses : colectânea de histórias, textos, lendas e poemas. (Em linha). Acedido em 27.12.2023. Disponível em https://www.berci.pt/contos-de-natal-portugueses.pdf

terça-feira, 26 de dezembro de 2023

Um conto de Natal

O Natal dos pobres, de Raul Brandão


Nesta quadra festiva somos bombardeados com imagens de intenso sofrimento vivido por muitos seres humanos que sobrevivem, em palcos de guerra; por outros, que fogem da miséria e da fome, formando longos cordões humanos, e que almejam alcançar a segurança;  e ainda, pela recente divulgação dos resultados do inquérito às condições de vida e rendimento dos portugueses em 2022, que revela que vivia em Portugal 1696 mil pessoas (17,0% da população) em situação de risco de pobreza, ou seja, com um rendimento inferior a 551 euros mensais. Estes valores mostram que o risco de pobreza em Portugal aumentou 0,6 %, de 2021 para 2022, vindo a atingir todas as classes etárias conforme mostra a figura 1.


Figura 1 - Pirâmide etária da população portuguesa em risco de pobreza, em 2022

Fonte: Pobreza e exclusão social em Portugal: relatório 2023. 


Neste contexto torna-se atual  recordar o capítulo XXVI - O Natal dos pobres -, da obra "Os pobres", de Raúl Brandão, publicado em 1906.


O NATAL DOS POBRES


Natal.

Está um dia fosco de neblina incerta e tristeza. Para lá as árvores despidas não bolem. A vida parou. As nuvens andam a esta hora a rastro pelas encostas pedregosas dos montes. Não se ouve um grito. Tudo na natureza se concentra e sonha. Há no entanto um grande rio envolto que nunca cessa de correr…

Longe pelos caminhos, através de pinheirais cismáticos e calados, vão velhinhas tristes, de saia pelos ombros, para consoar nessa noite com os filhos. Andam trôpegas léguas e léguas. As suas mãos calosas, as caras enrugadas, onde as lágrimas abriram sulcos, os olhos tristes, contam o que elas têm passado na vida, dias sem pão, suor de aflições, desamparos, maus tratos…

Os cavadores deixaram os arados mortos nos campos, que a chuva alaga. Que tudo repouse. O vinho de hoje conforta, como as lágrimas choradas pelas nossas desgraças, o lume de hoje aquece como o amor de nossas mães.

Nos soutos, sob a chuva que cai mansa e continua, andam pobres que não têm lenha, a arrancar uma raiz esquecida, para se aquecerem. Deus os tenha na sua mão de pai. Partem, chegam, vêm muito longe, para verem os seus meninos, matando saudades. Quase não comem e sustentam filhos, sustentam netos. Os velhos, que tem atrás de si uma vida de martírio e fomes, dizem:

– É hoje o maior dia do ano…

Na lareira arde um canhoto. Cai o nevão. A cozinha é negra, de telha vá, é negro o frio, mas as almas sentem-se agasalhadas. Por um buraco avistam-se as estrelas e uma pedra serve de lar. Ao estalido das pinhas, abafadas na cinza, repartem um pão que é o suor do seu rosto, bebem o vinho aquecido em árvores que as suas mãos cortaram…

Sentados ao lume não falam. As brasas vão-se extinguindo como um poente, ou como uma alma que vai deixar-nos. A Morte passa. No buraco do telhado a estrela reluz, o nevão cai com um ruído das flores desfolhadas, e cada um cisma em alguma coisa de indeterminado e vago, de longínquo; em certa hora da vida, na mãe, num filho ausente, naquela morta que passou seus dias a sacrificar-se por nós…

– O lume apaga-se…

– Deitai-lhe canhotos.

O lume apaga-se e as sombras da noite, em revoadas, vêm escutar-nos atentas.

Os pobres são como os rios. Estancam a sede da terra, fazem inchar as raízes e crescer as árvores acarretam; moem o pão nos moinhos. Ei-la a vida da terra. Todas as catedrais se construíram da sua dor; sem eles a vida pararia.

Natal dos pobres! natal dos pobres!… Porque é que criaturas misérrimas encontram ainda na sua gélida nudez horas para recordar e amar? Pobres repartem o seu pão; espezinhados dão-nos das suas lágrimas. Vinho quente! vinho quente e amargo, que sabe a aflição! Chegam-se uns aos outros para se aquecerem. Nas enfermarias, nos sítios onde se sofre, os míseros e os doentes quedam-se muito tempo a cismar. Os pobres pensam que existem seres ainda mais pobres, lares desamparados, onde nem o lume se acende; cuidam numa velhinha, que, a essa mesma hora, cisma, abandonada, e sozinha, ao pé de brasas extintas no filho doente, no filho ausente… Há cabanas nuas, lares rotos, almas mais gélidas que o nevão.

As lágrimas que se choram e se não veem são as melhores: caem sobre a alma.

Sofia sobe as escadas com uma caneca de vinho quente, para repartir com o Gebo. Na sua fisionomia há um cansaço enorme.

A chorar, misturando-lhe lágrimas, o velho, mais gordo e todo branco, bebe o azedo vinho quente das prostitutas. Depois abraçados soluçam na trapeira fria. Fora não se ouve rumor: as coisas ingeridas escutam. Põem-se a cismar na mãe que descansa na terra encharcada. Tudo tão triste, dias sem pão, e o amor a prendê-los, a uni-los, mais forte que a desgraça. Não protestam, não têm forças para gritar. Baixinho o velho Gebo e a filha choram aquela que a terra primeiro tragou.

– Se o Senhor também nos levasse…

E Sofia bebendo do mesmo copo:

– Tenha paciência, tenha paciência…

– Se o Senhor nos levasse juntos, na mesma hora…

Cuido que não tinha tanto frio.

– Aí tem pão.

– Sabes? Eu tenho medo de morrer. Se morresse contigo, minha filha, não tinha tanto medo.

– A mãe lá nos espera. Na cova acabam-se as precisões e as lágrimas…

– Tudo se acaba na cova. Chegada a nossa hora, acaba-se também a desgraça.

– Aqui tem o vinho.

Natal dos pobres, noite de comunhão, noite de lágrimas e saudades! Não é chuva que cai sem ruído, são lágrimas. O Gebo abre a janela e põe-se a falar para a escuridão com palavras que a noite escuta, com palavras que a noite leva. Sofia o ampara. 

Em torno da mesa de pinho ceiam as mulheres. Com os cotovelos fincados nas tábuas, olham o vinho quente e cismam… Ceia de natal! Ceia de natal!… Até as prostitutas se querem lembrar… Moídas de pancadas, têm más palavras, gritos, e um sorriso humilde. Fazem-se pequeninas para que lhes perdoem uma vida infame.

Falam! falam!… Parece que a mesma primavera negra fez dar emoção a estas criaturas exploradas e servidas. Lembram-se da sua vida, sempre lágrimas, risos sem piedade… Uma começa:

– Ninguém canta?

E logo outra, como se as palavras lhe saíssem de golfão:

– Eu cá foi por fome que me desfrutaram. Ninguém queria saber de mim e a minha madrasta calcava-me aos pés.

– Eu não sei como foi…

– E eu então – continua – foi por fome. O pai estava encarangado e a minha madrasta era tão má, que, por eu me demorar num recado, partiu-me um braço.

– Pois eu foi assim de repente… – diz outra.

– Ia pela rua fora. Vinha da fábrica, começou a chover e uma lama!… Tinha frio e um homem pôs-se a falar-me ao ouvido e a levar-me. Eu nem sei como aquilo foi… E a falar, a falar, até me doía o coração! E nunca mais o vi. Se o vir acho que nem o conheço.

– Enganam e nunca mais querem saber.

– A mim minha mãe bem me pregava mas a gente que há de fazer?

– Ontem os soldados puseram-me o corpo negro – diz uma.

E mostra a triste carne magoada, os seios murchos e com nódoas. No ombro os ossos furam-lhe a pele.

– Quando eu morrer… oh quando eu morrer!…

– Tola!

– Que tem? Tenho ali a roupa apartada.

– A mim, enganaram-me, levaram-me… Eu não sabia nada. Depois comecei a servir. Enganavam-me e punham-me fora… Depois não tinha mais para onde ir…

– Eu cá tive um filho…

Uma que estava calada soluçou no escuro. E como todas se voltassem pôs-se a rir e a ajeitar os cabelos.

– Eu tive um filho e pus-me a criá-lo.

Depois disso o meu amigo nunca mais quis saber.

Quando eu o procurava ria-se. Mostrava-lhe o inocente e ele punha-se a rir.

 – Mulheres não faltam, dizia-me. Vai-te! – E a gente fica feia. Vai um dia e disse-me: – Se cá tornas chamo a polícia.

– Eu chorei até não ter mais lágrimas e acabou-se tudo. São todos o mesmo. Noutro dia vi-o, mas ele fingiu que não me conheceu.

– E o teu filho era bonito?

– Era um anjinho do céu. Tanto chorei que secou-se- me o leite de chorar. A gente sempre e mais tola!…Pôs-se muito chupadinho e morreu.

– A Maria já deitou um à roda.

– Eu cá se tivesse um filhinho acho que morria por ele. Não tinha coração para o dar a criar.

– A gente não podemos ter filhos.

– Eu cá era uma inocente. Até me dá riso! Tinha treze anos e foi logo ao entrar para a fábrica. O mestre foi quem me desfrutou. Agarrou-me, mas eu não sabia e pus-me a chorar. – Cala-te! se dizes, vais para a rua! – Abandonou-me, outros vieram… A gente há de cumprir o seu fado.

– Eu cá fui um miminho. Meu pai tinha de seu… Depois tudo esqueci, porque senão a gente morria. Meu pai era muito meu amigo. Era preciso não ter coração para o enganar. Nem ele podia supor mal de mim, nem do outro que entrava na nossa casa. Meu pai era também muito amigo dele e tinha-lhe valido sempre. Ainda me lembro, quando meu pai comigo no colo me dizia: – Tu és o meu coraçãozinho… – Eu sempre tive um colo! Olhai: embalava-me como às crianças. – Falta-te a tua mãe, mas eu sou a tua mãe, queres? – Era uma dor do coração enganá-lo e nós enganámo-lo ambos. E eu bem sabia que ele era casado, mas mentia-me…

– Porque será que os homens mentem sempre?

– Mentia-me sempre, e eu era inocente. Mentiu-me e mentia a meu pai. O pior é que um dia fiquei grávida. Começou o meu castigo. – Vou-lhe dizer tudo.

– Diz – disse ele. Mata-lo. Se queres diz… – Eu calei-me.

– E agora? – Agora… – Eu já lhe não queria, acho mesmo que nunca lhe quis deveras. Foi uma desgraça. Já estava escrito que fosse desgraçada, acabou-se!… Depois não podia esconder o meu erro. Só meu pai não reparava… E ele que me imaginava uma inocente!… Esperai… – E agora? agora?… – perguntei-lhe. Então arranjei com que meu pai me deixasse ir com ele e a mulher para uma quinta. Se vós vísseis! A pobre da mulher! Batia-lhe sempre, tratava-a pior que a um cão.

– Cala-te! e ela calava-se, a pobre. – Fala! – e ela falava.

– O estupor, tu não te calarás! – Ela tinha os cabelos todos brancos e vai eu um dia perguntei-lhe quantos anos tinha. – Trinta – respondeu-me, e calou-se. Fiquei passada. O homem diante dela dava-me beijos para a ver chorar. Dizia-lhe: – Vou dormir com ela, ouves, velha? – E dormia comigo. A senhora não dizia palavra. Chorava e punha em mim uns olhos tão tristes, que faziam aflição. Um dia que ficámos sozinhas, ela disse-me: – A menina há de ser uma infeliz. – Eu chorei; e ela com a mão nos meus cabelos, a fazer-me festas! – Coitada! coitada, que sorte a sua tão negra!… Ainda eu… – Porque não o deixa? – perguntei-lhe. – Já me tinha deitado ao rio se não fossem os meus filhos.

– Ele sempre há desgraças! Às vezes mais vale ser mulher da vida.

– Esperai pelo resto. Tive as dores uma noite no verão, em a gosto, e a pobre da senhora é que me tratou.
Ele levou-me logo o filho. Na outra sala ouvi gritos. Vai e atirei-me pela cama fora, sem saber o que fazia. – Onde está o meu filho? – Fui mesmo de rastos e pus-me à porta a escutar. Eles berravam. – Se falas esgano-te! – dizia o malvado à mulher. – Mata-me! – tornava ela. – Tu queres a minha desgraça? Estorcego-te! – Depois ouvi um grande grito e fiquei como morta. – O nosso filho? o meu filho? – Nasceu morto. – A mulher a um canto chorou. Chorou sempre depois.

– Tinha-o matado, o malvado?…

– Tinha. Afogou-o na latrina. Depois veio a polícia. Esperai… A criada ouvira os gritos. Sabe-se sempre tudo, o diabo tapa dum lado e descobre do outro. Ele fugiu para o Brasil, eu fui presa, e meu pai diante duma ingratidão tão negra – quereis crer? – estalou-lhe o coração. Depois… depois… A gente quando nasce já tem a sua sina escrita.

– E a ti?… Não falas? – perguntam a uma sumida no escuro.

– A mim enganaram-me. Foi há tanto tempo que já me não lembra. Tudo perdi.

– E a tua família?

– A gente não tem família.

Na noite, a um canto do Hospital o velho banco de tábuas puídas, dá-lhe também para cismar. A ventania parou. Duma fresta tomba luar. A treva amontoa-se ao fundo, e, para além, nos corredores abobadados, arde um lampião. Direis que o negrume remexe: pedaços de escuridão destacam-se, escoam-se sem ruído pelas muralhas húmidas e espessas. Mais para o fundo há como um abismo, vala comum de treva empastada. Os gritos redobram; depois, por momentos o silêncio sufoca, como o dum sepulcro.

– Se é luar que cai daquela fresta… – cuida o banco.

– Se fosse luar!

Pela escada vê-se a enfermaria onde os lampiões em fila dão uma claridade triste, que mostra os corpos moldados em branco, caídos nos leitos: parece uma necrópole subterrânea e imensa.

– Se fosse luar… – Há que tempos que não sinto o luar. Era como um ruído branco que me envolvia outrora na floresta. Neva às vezes luar. E havia ainda outras vozes… Sempre se sonha, quando certas noites nascem!

Era diferente… Havia rumor nas folhas e o vento dizia aos ramos histórias acontecidas noutros montes. Há épocas em que o vento traz noivados, ais de sapos, frangalhos arrancados às flores… Se aquela poeira fosse luar… E se o luar se pusesse a correr sobre mim, aquecendo- me como outrora, quando em mim subia não sei o quê de misterioso e forte?

Redobram os gemidos, os estertores, os gritos. Os últimos lampiões apagam-se um a um, como se alguém lhe soprasse. É a Morte seguindo o seu caminho. Sombras esvoaçam. E a cova, negra, toma corpo, vive, mais calada, maior, vala infinita, a que uma luzinha dá alma. E o banco cisma:

– Há que tempos que não sinto em mim a luz da manhã, que traz consigo a vida de tudo o que existe, dos rios, das outras árvores, nem o sol a crescer em vagas de oiro, nem a água verde, melancólica, e tão mansa entre os choupos que parece ir vogando já morta… Sinto-me transido… Transido? Isto é corno fogo, mas trespassa-me de frio. E não há nevão, mas ouço sempre gritos, ais, dores… Oh se fosse luar!… Destas enfermarias corre também um sonho parecido com luar… Será uma fonte?… As fontes! nem te lembres das fontes!… Aqui parece que as minhas fibras mergulham num mar revolvido, que eu ignoro, mas que é feito de gritos.

Baixo a pedra começa também a lembrar-se e àquela hora perdida da noite toda a alma inconsciente do Hospital estremece. Quer recordar, palpita e logo esquece… Os sonhos dos doentes, dos pobres, dos tristes, materializam-se e são como nuvens: são de fogo, são de luar. Sombras aos bandos dissolvem-se, para outra vez se criarem.

– Acho que sempre é luar… E quando havia sol? Torrentes corriam pelo meu tronco, inundavam a minha roupa cascos a e em volta numa poeira azul andava um turbilhão de bichos. Outras árvores flutuavam na mesma poalha e as suas folhas ou eram de sol ou todas de prata. Longe – e que encanto aquela companhia sempre presente e amiga! – o fio do rio chalrava. Folhas caíam e iam devagarinho viajar sobre a água verde. Para onde?… Debaixo de mim, até ao mais fundo das minhas raízes quantas vidas protegi e defendi!… As minhas raízes tocavam na vida!… Às vezes caia um pé de água, mas depois vinham sempre teias de sol, fios de sol, para me enredar – e o sol traz consigo um cheiro a terra e renovo que consola, o hálito dos montes e dos pinheiros meus amigos.

Nas temporadas fúnebres em que a água cai a golfões, a gente concentra-se e fica meio adormecida. Os montes envolvem-se em nuvens, os bichos na terra tremem de frio sob as raízes e as folhas secas estalam e gemem com saudades ao deixarem-nos. Se por instantes se descerra a névoa, os montes são mendigos, com um grande manto remendado. Ao fim da tarde levanta-se dos campos um lindo luar azulado que sobe e se dispersa. É a névoa. Baba de oiro luz na água e os choupos são sombras. Ao longe havia um biombo verde de pinheiros, depois montes, e depois poentes doirados… Porque é que me ponho a pensar e a cismar? Há tanto tempo que dormia! As minhas fibras esta noite estremecem. Há-de ser do luar… Oh se ainda houvesse luar!

As mulheres calaram-se. Não há ruído. Elas próprias sonham. Em torno da mesa, na cozinha saqueada, bebem sem palavra o vinho quente. Algumas pensam decerto num lar e bebem as lágrimas que caem no vinho e o gelam.

– A esta hora a minha mãezinha há de por força pensar em mim… – começa uma.

– E tu porque não foste consoar com ela?

– Punham-me fora! queriam-me lá!… Meu pai, meus irmãos…

– Em minha casa faz-se uma consoada muito grande. Assam-se pinhas no lar, e minhas irmãs pequeninas… oh minhas irmãs pequeninas!…

E sufocada desata de repente a chorar. As outras não se riem como de costume. Só uma, sentindo que iam todas chorar, canta:

Se vires a mulher perdida…

– Raparigas, é o fado… De que serve agora chorar? Ninguém foge ao seu fado.

– À noite a minha mãe aquecia vinho e dava-mo na cama. Sempre a gente é criada para uma vida! Quem adivinha?

– Cala-te!

– Eu era o miminho de todos, eu…

– Só eu nunca tive mãe, de mim ninguém se importa! Acabou-se! Cala-te! cala-te!…

Na escuridão as cinzas que restam num lar fazem tristeza e saudade. Brilham, esmorecem, vão-se apagar: são vidas que se extinguem, a alma da treva que em redor sufoca. Assim o Prédio ao abandono, sob a enxurrada, parecia cismar, como um rescaldo coberto de cinzas. Parara trágico defronte do Hospital, e cansado, tal como um pobre ao fim da vida, contempla o seu destino.

Natal dos pobres! Natal amargo dos que não têm pão e se juntam friorentos em torno dum lume que não aquece; natal dos seres que a desgraça usou… O vinho enregela, o pão é duro, mas resta ainda este lume, que jamais se apaga: – Amanhã! amanhã!…

Que poesia tão triste não vai caindo como um choro sobre aquelas almas de misérrimos, de gebos, de prostitutas, de desgraçados!

Numa trapeira o gato-pingado quer dizer: – Amo-te! – mas foi sempre tão nu que não sabe exprimir o que sente.

Na alma daquela criatura humilde, despida e escarnecida, que tinha medo de sonhar e até de chorar, fizera-se um clarão. Tal o espanto enternecido duma pedra a que uma raiz se apega e que a olha deitar flor na primeira primavera. – Fui eu, apesar da minha secura, pensa o calhau, que a trouxe no ventre.

Sem falar, bebem juntos, ele e a pobre, o mesmo vinho. Ele diz:

– Ambos somos desgraçados e sozinhos.

O vinho que havia aquecido dá-lho com um pedaço de pão. Ela olha-o, tendo sempre crescido por acaso e piedade, rota e triste. Havia pois alguém que a amasse?…

– Bebe.

– É tão bom a gente estar junta.

– Não se tem frio.

– Esta noite, sabes?… Lembro-me de minha mãe… Porque seria que ela me enjeitou?

Fora choram. Ela ergue-se e vê no corredor uma rapariguinha que a mãe pôs fora da porta e que chora e pensa.

– E se eu me deitasse a afogar?

Dá-lhe do seu pão, reparte do seu vinho e, mísera, rota, ressequida, diz, pondo-lhe a mão na cabeça:

– Deus te crie para boa sorte…

Na terra só os pobres sabem ser desgraçados.

Meia-noite! meia-noite!… Para que tudo se crie, para que o pó se transforme em vida, que é necessário? Torrentes de chuva, oceanos de água. Eis a vida… Para que do que é matéria algo de radioso irrompa, que é preciso? Um atlântico de lágrimas.

Da matéria tem nascido à custa de gritos, de fibras torcidas, o imorredoiro espírito. Através das idades ele se criou, através da dor veio surgindo. O mundo espiritual é já hoje mais vasto que o mundo material. A dor é a primavera da vida. Para se entrar na vida ou para se entrar na morte há sempre gritos. A dor ara o céu cheio de estrelas e os seres humildes.

Que se cria de tudo isto? Que é que se alimenta no infinito? Destes pobres espezinhados, revolvidos, nascem as coisas eternas – húmus, amálgama, protoplasma, espírito lácteo, com que se constroem os mundos. Na vala comum os seus corpos, cansados de sofrer, são a vida da terra: as árvores, o pão, as formas, a seiva esplendente. No infinito é da sua dor que se sustenta Deus.

Fonte:
Projeto Gutenberg. Os pobres de Raul Brandão (Em linha): Acedido em 26.12.2023. Disponível em https://www.gutenberg.org/cache/epub/20841/pg20841-images.html

sábado, 23 de dezembro de 2023

O presépio de D. João da Câmara | Conto de Natal


O presépio



Havia  quase  um  ano  que  estava  na  loja,  mercearia  num  bairro  escuro,  em que mal entrava de esguelha, como espreitando a medo, um raio de sol, entre as casarias muito altas da rua tortuosa.

Com  doze  anos,  que  saudades  tinha  da  aldeia,  da  família,  dos  antigos companheiros  de  escola,  dos  cães  amigos  que  ladravam  de noite  a  vigiar  a casa!

Tudo lá tão longe! Ah! Se ele soubesse!...

Pois nem uma lágrima lhe viera anuviar o último adeus, quando a diligência dera volta na estrada e ele vira sumirem-se os choupos da ribeira e o lenço que mão saudosa sacudia no alto do cabeço.

É  que  o  deslumbrava  a  ideia  de  Lisboa,  de  que  tantas  maravilhas  grandes lhe  contavam.  Ainda  agora  partia,  e  já  se  via  de  volta  na  aldeia,  de  relógio  e cadeia  de ouro,a  falar  de  alto,  a  puxar  o  bigode,  a  dar  enchente,  como  o Januário, que lhe arranjara o lugar.

Com  o  seu  examezinho  de  instrução  primária,  marçano  de  uma  tenda... Não, que os pais não o queriam para cavador.

Tinham  sido  consultados  o  mestre-escola,  o  prior,  o  senhor  Freitas, lavrador  muito  importante  que  arrastava  tudonas  eleições,  o  Custódio, velhote de muito bom conselho, e todos se tinham mostrado de acordo: não havia  como  Lisboa  para  fazer  um  homem.  Era  ver  o  Januário  que  tinha casado com a viúva do patrão. A loja era de um cunhado dele, bom homem, áspero mas bom homem. Os olhos baixos do Manuelzito, fitos no chão, viam no  tijolo  resplandecer  auréolas,  que  giravam  como  o  fogo  de  vistas  pelas festas.

Ah estava, havia quase um ano; e no desvão da escada, onde às dez horas o mandavam  deitar,  a  morrer  de  calor  no  Verão,  no  Inverno  a  morrer de  frio, punha-se a rever os campos e a casa deixados sem as lágrimas, que lhe corriam agora em grossos fios pelas faces.

Os primeiros dias tinham passado muito lentos.

A conselho do Januário, um biscoito ou outro da mão papuda e oleosa do merceeiro tinham-no ajudado na tarefa. Assim é que ele havia de ser homem, um dia. Mas o patrão mostrava maior pressa.

Pai,  mãe  e  mestre-escola  nunca  lhe tinham batido.  Atreveu-se  uma  vez  a declará-lo.  Foi  pior.  Chegou  o  Verão.  As  festas  de  São  João  e  São  Pedro aumentaram-lhe  a  tristeza.  Reviu  nesses  dias  mais  intensamente  a  alegria  da aldeia, os bailes à noite em volta da fogueira, a ida à fonte pela manhã, o sino a tocar  à  missa,  e  ele  a  pensar  que,  quando  fosse  crescido,  havia  de  ter  uma namorada  por  quem  queimasse  uma alcachofra,  a  quem  cantasse  umas quadras falando de estrelas e de flores.

A bulha nas ruas, nessas noites, não o deixara dormir. Cada bomba era uma pancada  no  coração.  Um  sol-e-dó  que  passou  tocando  arrancou-lhe  lágrimas de imensa saudade.

Pelos Santos, com a melancolia do tempo, ainda foi pior.

Depois veio o Inverno, começaram os dias de chuva.

O  mau  tempo  irritava  o  patrão,  porque  lhe  afugentava  fregueses.  Na  loja, com  recantos  muito  negros,  acendiam-se  muito  cedo  os  candeeiros,  e  o Manuelzito  tinha  pena da  sombra  em  que  se  acolhia  com  maior  amor. Pasmava os olhos, fugia com o pensamento para muito longe.

—Acorda, ralaço! —gritava-lhe o patrão.

Estava a chegar o Natal.

Que lindo era o Natal lá na aldeia!

Andavam  na  rua  a  abrir  um  cano;  quase  ninguém  ali passava;  os  passeios eram cheios de lama. O patrão andava furioso.

Então o pequeno teve uma ideia.

* * *

Lembrou-se  de  fazer  muito  misteriosamente  um  presépio.  O  segredo  em que havia de trabalhar mais o animava na tarefa.

Todos os dias, muito a medo, enquanto o  patrão almoçava ou saía da loja algum instante, vinha à porta, se não havia freguês a servir, espreitava, corria, apanhava um nadinha de barro nas escavações do cano. Escondia-o, e debaixo do balcão, quase às apalpadelas, ia fazendo as figurinhas.

Assim  modelou  o  menino  Jesus,  que  deitou  num  berço  de  caixa  de fósforos, Nossa Senhora de mãos postas, São José de grandes barbas, os três Reis Magos  a cavalo, e  os pastores, um a tocar gaita de  foles, outro  com um cordeirinho  às  costas,  e  uma  mulher  com  uma  bilha.  Não  se  pareceriam  lá muito; mas ele deu provas de que sabia puxar pela imaginação.

Sempre lhe faltava alguma coisa. Havia problemas difíceis de resolver.

Um  dia,  engraxando  as  botas  do  patrão,  lembrou-se  de  engraxar  um  dos reis, e pôs-lhe depois umas bolinhas brancas, de papel a fingir os olhos.

Aos  anjos  fez  asas  com  as  penas  de  uma  galinha  que  depenou  para  um jantar  de  festa  que  não  comeu.  Moeu  vidro  para  fingir  as  águas  do  rio,  e  no papel de embrulho recortou um moinho que só havia de armar à última hora.

Levou nisso parte de Novembro e Dezembro todo, até ao Natal.

Escondia os materiais debaixo da enxerga e, de vez em quando, revia-se na obra.

O que mais o encantava era o menino Jesus, com a cabeça do tamanho de um grão de milho, com buraquinhosa fingirem olhos, ouvidos, nariz e boca. Tinha  mãos  com  cinco  dedos  riscados  a  canivete  e  dois  pezinhos  que  ele achava um encanto.

Com tiras de papel azul havia de fazer o céu e, como o não tinha dourado onde  recortasse  a  estrela,  fez  em  papel  branco  uma meia  Lua;  vinha  quase  a dar na mesma.

Aquele mês passou correndo.

Era a véspera do Natal. As dez e meia, o patrão mandou-o deitar e saiu.

Que alegria estar só!

Não lhe deixavam luz; mas que importava? Às escuras armaria o presépio. E logo começou. Enrolou o moinho, pôs-lhe as velas; esticou o papel azul que fingia  o  céu  e  pregou  nele  com  um  alfinete  a  meia  Lua;  espalhou  o  vidro moído, num S em volta  das  palhas; dispôs as figurinhas, suspendeu os anjos. Depois fez uma carreira de fósforos de cera, que todos se tinham de acender ao mesmo tempo, num deslumbramento, quando desse meia noite.

Deram onze e três quartos.

Ajoelhou.

Batia-lhe  o  coração,  que  lhe  parecia  que  deviam  de  ser  milagrosas  as figurinhas, que delas lhe viria algum bem, consolação da sua vida triste.

Que  seria  quando  ele  iluminasse  o  desvão  da  escada  e  os  santinhos  se pusessem  todos  a  luzir  quase  tanto  como  os  verdadeiros?  Rezava-lhes... Rezava-lhes...  Àquela  hora,  lá  na  aldeia,  tocavam  os  sinos  alegres  e  iam ranchos contentes a caminho da igreja. Lá dentro reluzia o trono, e o sacristão muito atarefado ia, vinha...

Meia noite!

Acendeu os fósforos e ficou embasbacado!

Nunca  assim  vira  coisa  tão  perfeita.  Os  anjos  voavam  deveras,  os  cavalos dos  reis  galopavam, o rio corria, as velas  giravam no  moinho  e os  pontinhos do Menino Jesus sorriam-lhe no rosto a São José e a Nossa Senhora!

Pôs-se a cantar, como lá na aldeia:

Andava nessas campinas,

Esta noite, um querubim.

Tão enlevado cantava, que nem ouviu o patrão abrir a porta, entrar na loja, chegar ao desvão.

Acordou-o do êxtase um pontapé.

—Isso... Agora larga-me fogo à escada!... Varre-me já esse lixo!

E ele, a chorar, levantou-se, foi buscar a vassoura.

O bruto continuava aos pontapés.

—Vá?... Vá!

Mas  quando  se  deitou,  encontrou  na  enxerga  uma  figurinha.  Apalpou-a, conheceu-a  logo:  era  a  do  Menino  Jesus.  Beijou-a  muito.  Pior  vida  levara do que ele...

Sentiu de  repente  um dó  muito grande do  patrão, que  não  vira nada, nem que era tão bonito aquele Menino, com um olhar tão meigo nos seus olhinhos picados.


Fonte:
Contos de Natal portugueses : colectânea de histórias, textos, lendas e poemas. (Em linha). Acedido em 23.12.2023. Disponível em https://www.berci.pt/contos-de-natal-portugueses.pdf

quinta-feira, 28 de setembro de 2023

Fora da estante | Contos



Na iniciativa da biblioteca intitulada "Fora da estante", e tendo em vista que os livros querem-se na mão dos seus leitores, para serem lidos e usufruídos, a biblioteca divulga nesta primeira quinzena do mês de outubro os contos, que adquiriu recentemente.

Todas as obras encontram-se disponíveis para empréstimo.

sexta-feira, 26 de maio de 2023

4.º Encontro de Contadores de Histórias



No dia 3 de junho (sábado), entre as 10h30 e as 22h00, a Biblioteca Municipal Fernando Piteira Santos promove o 4.º Encontro de Contadores de Histórias, evento que celebra a palavra oral e a literatura com um conjunto de sessões de contos dirigidos a crianças e adultos.

Reúna a família e faça parte deste evento!

Participação gratuita. Não é necessária inscrição prévia.

Programa | 4.º Encontro de Contadores de Histórias

  • 10h30 – Sessão de contos para famílias, com Bru Junça (Piso-1)

  • 11h30 - Sessão de contos para famílias, com Clara Haddad (Piso-1)

  • 15h00 – Sessão de fantoches, com Historioscópio (Piso-1)

  • 16h00 - Sessão de contos para famílias, com Carlos Marques (Piso-1)

  • 17h00 - Sessão de contos para famílias, com Cláudia Almendra (Piso-1)

  • 18h00 - Sessão de contos para famílias, Luís Correia Carmelo (Piso-1)

  • 21h00 - Sessão de contos para adultos, com Luzia do Rosário (Auditório Rogério Rodrigues)

  • 22h00 – Momento musical, com Pedro Freitas (Auditório Rogério Rodrigues)

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

Contrabando e natividade em "Fronteira"


Um conto de Miguel Torga



FRONTEIRA

"Quando a noite desce e sepulta dentro do manto o perfil austero do castelo de Fuentes, Fronteira desperta. 

Range primeiro a porta do Valentim, e sai por ela, magro, fechado numa roupa negra de bombazina, um vulto que se perde cinco ou seis passos depois.

A seguir, aponta à escuridão o nariz afilado do Sabino. Parece um rato a surgir do buraco. Fareja, fareja, hesita, bate as pestanas meia dúzia de vezes a acostumar-se às trevas, e corre docemente a fechadura do cortelho.

O Rala, de braço bambo da navalhada que o D. José, em Loivos, lhe mandou à traição, dá sempre uma resposta torta à mãe, quando já no quinteiro ela lhe recomenda não sei quê lá de dentro.

O Salta, que parece anão, esgueira-se pelos fundos da casa, chega ao cruzeiro, benze-se,  e ninguém lhe põe mais a vista em cima.

A Isabel, sempre com aquele ar de quem vai lavar os cueiros de um filho, sai quando o relógio de Fuentes, longe e soturnamente, bate as onze. Aparece no patamar como se nada fosse, toma altura às estrelas, se as há, e some-se na negrura como os outros.

O Júlio Moinante, esse levanta o gravelho, abre, senta-se num degrau da casa, acomoda o coto da perna da melhor maneira que pode, e fica horas a fio a seguir na escuridão o destino de um que lhe dói. Era o rei de Fronteira. Morto o Faustino nas Pedras Ninhas, herdou-lhe o guião. Mas um dia o Penca agarrou-o com a boca na botija, e foi só uma perna varada e as tripas do macho à mostra. Quando, naquele estado, entraram ambos em Fronteira, ele e o animal, parecia que o mundo se ia acabar ali. Mas tinha o filho, o João. E agora, enquanto o rapaz, como os mais, se perde nos caminhos da noite, vai-lhe seguindo os passos da soleira da porta.

Saem outros, ainda. Devagar, pelas horas a cabo, os que parece terem-se esquecido, vão deslizando da toca. Só mesmo quando não existe mais corpo adulto e válido no povo é que Fronteira sossega.

Coisa estranha: esta rarefacção que se faz na aldeia, longe de a esvaziar, enche-a. A terra veste-se de um sentido novo, assim deserta, à espera. Pequenina, de casas iguais e rudimentares, escondida do mundo nas dobras angustiadas e ossudas de uma capucha de granito, as horas que medeiam entre o seu coração e Fuentes são tão fundas e carregadas que quase magoam. Quem regressará primeiro?

Noventa vezes em cada cem, é a Isabel. Aquilo são pés de veludo! Mas às vezes é o Sabino. Sempre de nariz no ar, a bater as pestanas contra a luz da candeia, entra em casa alagado em água e com um bafo tal a aguardente que tomba.

         – Arruma!

 A mulher nem suspira. Pega no saco, mete-o debaixo da cama, e põe-se a lançar o caldo. Por fim, começa:

         – O Valentim?

         – Chumbo. Já passou.

         – O Rala?

         – Uma caixa de conhaque. Vem por Fornos.

         – O Salta?

         – Foi a Torneros. Volta amanhã.

         – A Isabel?

         – Seda. Ao sair do Padilha parecia um bombo.

E enquanto a maçã-de-adão sobe e desce no pescoço comprido do Sabino, e a malga de caldo se esvazia, das respostas que dá e do mágico ventre da noite, diante do olhar angustiado da Joana e de Fronteira, vão surgindo os que faltam ainda: o João, o Félix e o Maximino.

Quando algum não regressa, e por lá fica varado pela bala de uma lei que Fronteira não pode compreender, o coração da aldeia estremece, mas não hesita. Desde que o mundo é mundo que toda a gente ali governa a vida na lavoura que a terra permite. E, com luto na alma ou no casaco, mal a noite escurece, continua a faina. A vida está acima das desgraças e dos códigos. De mais, diante da fatalidade a que a povoação está condenada, a própria guarda acaba por descrer da sua missão hirta e fria na escuridão das horas. E se por acaso se juntam na venda do Inácio uns e outros – guardas e contrabandistas –, fala-se honradamente da melhor maneira de ganhar o pão: se por conta do Estado a vigiar o ribeiro, se por conta da Vida a passar o ribeiro. 

De longe em longe, porém, quando há transferências ou rendições, e aparecem caras e consciências novas, são precisos alguns dias para se chegar a essa perfeição de entendimento entre as duas forças. O que vem teima, o que está teima, e parece aço a bater em pederneira. Mas tudo acaba em paz. 

Desses saltos no quotidiano de Fronteira, o pior foi o que se deu com a vinda do Robalo. 

Já lá vão anos. O rapaz era do Minho, acostumado ao positivismo da sua terra: um lameiro, uma junta de bois, uma videira de enforcado, o Abade muito vermelho à varanda da residência, e o Senhor pela Páscoa. Além disso, novo no ofício – na guarda, para onde entrara em nome dessa mesma terrosa realidade: um ordenado certo e a reforma por inteiro. Daí que lhe parecesse o chão de Fronteira movediço sob os pés. Mal chegou e se foi apresentar ao posto, deu uma volta pelo povoado. E aquelas casas na extrema pureza de uma toca humana, e aqueles seres deitados ao sol como esquecidos da vida, transtornaram-lhe o entendimento.

         – Esta gente que faz? – perguntou a um companheiro já maduro no ofício.

         – Contrabando.

         – Contrabando!? Todos!? E as terras, a agricultura?

         – Terras!? Estas penedias!?

O Robalo queria falar de qualquer veiga possível, de qualquer chã que não vira ainda, mas tinha forçosamente de existir, pois que na sua ideia um povo não podia viver senão de hortas e lameiros. Insistiu por isso na estranheza. Mas o outro lavou dali as mãos:

         – Não. Aqui, a terra, ao todo, ao todo, produz a bica de água da fonte. O resto vão-no buscar a Fuentes. 

Mas nem assim o Robalo entendeu Fronteira e o seu destino. No dia seguinte, pelo ribeiro fora, parecia um cão a guardar. Que o dever acima de tudo, que mais isto, que mais aquilo – sítio que rondasse era sítio excomungado. Até as ervas falavam quando qualquer as pisava de saco às costas. Mal a sua ladradela de mastim zeloso se ouvia, ou se parava logo ou nem Deus do céu valia a um cristão. Em quinze dias foram dois tiros no peito do Fagundes, um par de coronhadas no Albino, e ao Gaspar teve-o mesmo por um triz. Se não dá um torcegão no pé quando apontava, varava a cabeça do infeliz de lado a lado. A bala passou-lhe a menos de meio palmo das fontes. 

Mas Fronteira tinha de vencer. Primeiro, porque o coração dos homens, por mais duro que seja, tem sempre um ponto fraco por onde lhe entra a ternura; segundo, porque o Diabo põe e Deus dispõe. 

Foi assim:

Apesar de inconvivente e mazombo, um domingo em que havia festa em Fronteira, o Robalo, que estava de folga, não resistiu: chegou-se aos bons. E quem havia de lhe entrar pelos olhos dentro ao natural, cobertinha da luz doirada do Sol? A Isabel! A rapariga tirava a respiração a um mortal. Vinte e dois anos que nem vinte e dois dias de S. João. Cada braço, cada perna, cada seio, que era de a gente se lamber. Ora como ele andava também na mesma conta de primaveras, e não era de pedra, o lume pegou-se à estopa. De tal sorte, que, quando o dia acabou, o Robalo não parecia o mesmo. Evaporara-se-lhe o ar de salvador do mundo, e até já via Fronteira doutro jeito. Se não fosse aquele maldito instinto de castro-laboreiro… Tempos depois, apesar de os amores com a Isabel irem de vento em popa, cama e tudo, ainda o ladrão se lhe sai com esta:

         – Gosto muito de ti, tudo o mais, mas se te encontro a passar carga e não paras, atiro como a outro qualquer.

          A Isabel riu-se.

         – Palavra? !

         – Palavra.

        — A mim?!!!

         – A minha mãe, que fosse…

 Desprenderam-se dos braços um do outro melancolicamente. E quando no dia seguinte o Robalo voltou ao ninho tinha a porta fechada.   

Como a vida em Fronteira é de noite que se vive, e o Robalo era todo senhor do seu nariz, puderam decorrer meses sem o rapaz pôr os olhos sequer na rapariga. Ela passava o ribeiro como podia, e ele guardava o ribeiro como podia.  

Fronteira olhava.  

E até ao Natal a vida foi deslizando assim. 

Na noite de Consoada, porém, aconteceu o que já se esperava. Parte da guarnição tinha ido de licença. Todos se chegavam ao calor da lareira familiar, saudosos de paz e harmonia. Mas o Robalo ficara firme no seu posto.

Nevava. Um frio tal que o próprio bafo gelava mal saía da boca. Visto de dentro da capa de oleado, o mundo parecia uma coisa irreal, alva, inefável como um sonho. O céu estava ainda mais silencioso e mais alto que de costume. E qualquer parte do Robalo, sem ele querer, diluía-se na magia que enluarava tudo. No Minho, numa noite assim… Pena a Isabel ter-lhe saído contrabandista… Tê-la encontrado numa terra daquelas… Senão, mais tarde, quando tivesse a reforma… Até mesmo agora… 

Comovido, deixou-se perder por momentos na vaga mansidão da brancura. 

Mas, como por detrás do homem o guarda continuava alerta, mal acabava de pisar aquele caminho sem pedras, já o seu ouvido de cão da noite lhe trazia à consciência um rumor de passos só pressentidos.

         Acordou inteiro.

         Tchap, tchap, tchap… Pela neve fora, da outra banda, aproximava-se alguém.

         Quem diabo seria? O Carrapito? O Carrapito, não.

Olha o Carrapito meter-se a um nevão daqueles! O Samuel? O Samuel também não.

Era mais atarracado. Só se fosse o Gregório… Sim, porque o Cristóvão, que tinha o mesmo corpo, estava em Vila Seca, no namoro. Vira-o passar…

A pessoa que vinha, caminhava sempre, direita como um fuso ao cano da carabina.

Tchap… Tchap…

Todo gelado por fora, mas quente da emoção que lhe dava sempre qualquer alma em direcção ao ribeiro, o Robalo esperou. E quando os passos se molharam no rego de água e chegaram à margem, a mola tensa estalou:

         – Alto!

Mas o gume da palavra de comando não conseguiu cortar sequer os flocos de neve.A sensação que teve ao gritar foi a de um baque amortecido. Uma espécie de tiro à queima-roupa.

Repetiu:

         – Alto!

Uma voz cansada entrou-lhe no coração.

         – Sou eu…

         – Tu?!

         – Sou. Mas nem trago contrabando, nem me posso demorar.

         – Tu?!

         – Eu mesmo. E já disse que não trago contrabando, nem me posso demorar.

Se ele não fosse o Robalo, cego e frio dentro da função, o que lhe apetecia era tomar nos braços aquele corpo amado e rebelde, enfarinhado de neve e não sabia de que outra secreta alvura. Mas era o Robalo guarda, a guardar. Por isso fez arrefecer nas veias a fogueira que o escaldava e estacou o primeiro passo do vulto com nova ordem:

         – Alto, já disse!

Docemente, numa carícia estranha para os seus ouvidos, quem passava falou:

         – Não berres, que não vale a pena. Este volume todo – é gente. A intenção era boa, era… Mas de repente, em Fuentes, começam-me a apertar as dores… Se não me apego às pernas com quanta alma tinha, nascia-me o rapaz galego. Querias?

O coração do Robalo não aguentava tanto. Um filho! Um filho seu no ventre de uma contrabandista!

Regelou-se ainda mais.

         – A mim não me enganas tu. Gente! No posto eu te direi se isso é gente, ou são cortes de seda. Vamos lá!

Pela neve fora a presença da rapariga era como um enigma sagrado diante dos olhos dele. Mas o guarda guardava.

         – O homem de Deus, deixa-me ir enquanto posso! Olha que se as dores voltam como há bocado, é no sítio onde estiver…

O Robalo, porém, tinha de levar a cruz ao fim. Já com a Isabel fechada na pobreza da tarimba, esperou ainda o milagre de a sua obstinação acabar em tecidos, em seco e peco contrabando posto a nu. 

Fronteira, contudo, podia mais do que uma absurda obstinação. E, mal a parturiente atirou lá de dentro o primeiro grito a valer, o Robalo ruiu. 

Desesperado, parecia um doido por toda a casa. De quando em quando, arrastado por uma força que não conseguia dominar, chegava-se à porta do quarto, humilde, rasgado de cima abaixo de ternura:

         – Isabel…

Um berro que estalava fino e súbito fazia-o recuar transido para o mais fundo da sala.

Até que a trovoada amainou e do pesado silêncio que se fez nasceu para os seus ouvidos maravilhados um choro doce, novo, muito puro, que lhe arrancou lágrimas dos olhos.

 Chegou-se à porta outra vez:

         – Isabel…

 A voz cansada da mulher mandou-o entrar.

E, quando o dia rompeu, Fronteira tinha de todo ganho a partida. Demitido, o Robalo juntou-se com a rapariga. Ora como a lavoura de Fronteira não é outra, ea boca aperta, que remédio senão entrar na lei da terra! Contrabandista.

E aí começam ambos a trabalhar, ele em armas de fogo, que vai buscar a Vigo, e ela em cortes de seda, que esconde debaixo da camisa, enrolados à cinta, de tal maneira que já ninguém sabe ao certo quando atravessa o ribeiro grávida a valer ou prenha de mercadoria".

Novos Contos da Montanha, Miguel Torga

Fonte:
Miguel Torga - A Criação do Mundo. Acedido em 27.12.2022 em https://www.facebook.com/profile.php?id=100044185851812

🎄

Este conto de Torga foi adaptado para televisão e incluído no projeto Trezes que junta a literatura nacional ao cinema em português com 13 autores, 13 contos e 13 cineastas contemporâneos, exibido na RTP1  em 2020.

Aqui fica o trailer:


sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

"O melhor presente de Natal" | Conto de Michael Morpurgo


O melhor presente de Natal do mundo


A todos quantos, de ambos os lados do conflito,
tomaram parte na trégua de Natal de 1914.

Vi-a numa loja de velharias em Bridport. Era uma escrivaninha de tampo corrediço, e o vendedor afirmava tratar-se de uma peça de carvalho do início do século XIX. Havia anos que procurava uma escrivaninha deste estilo, mas nunca tinha encontrado uma que pudesse comprar. Esta não estava em bom estado: a tampa mostrava várias rachadelas, uma das pernas estava mal consertada, e tinha partes queimadas.

Não era cara, e pensei que eu próprio poderia tentar restaurá-la. Seria um risco, um desafio, mas era a minha única oportunidade de possuir uma escrivaninha de tampo corrediço. Paguei o que o homem pediu, e levei-a para a minha oficina, na parte de trás da garagem. Comecei a restaurá-la na véspera de Natal, sobretudo devido à quantidade de visitas que tinha em casa. Faziam muito barulho e eu queria encontrar algum sossego.

Abri o tampo e puxei as gavetas. Cada uma delas anunciava um desafio maior do que eu tinha imaginado. O verniz estava a descascar um pouco por todo o lado: parecia que a peça tinha sido salva de um naufrágio. Era evidente que esta escrivaninha tinha atravessado fogo e água. A última gaveta estava empenada e tentei abri-la com cuidado. Mas os meus esforços não resultaram e tive de usar toda a força que pude. Bati-lhe com o punho e logo ela se abriu, revelando um compartimento secreto. Este continha uma pequena caixa de folha, com uma folha de papel pautada, na qual a mão trémula de alguém tinha escrito: “A última carta de Jim, recebida a 25 de Janeiro de 1915. Para ser enterrada comigo, quando eu morrer.”

Soube, logo que o fiz, que não deveria abrir a caixa, mas a curiosidade levou a melhor sobre os meus escrúpulos. Como sempre.

Dentro da caixa estava um envelope, endereçado a Mrs. Jim Macpherson, 12 Copper Beeches, Bridport, Dorset. 

Peguei na carta e abri-a. Estava escrita a lápis e datava de 26 de Dezembro de 1914.




Querida Connie



Escrevo-te, feliz, porque acaba de acontecer algo de maravilhoso que quero contar-te desde já. Ontem de manhã, encontrávamo-nos todos nas trincheiras. Era Dia de Natal e estava uma das manhãs mais bonitas que vira até então, tranquila e gelada como uma manhã de Natal deve ser. Gostava de poder dizer-te que fomos nós a ter a iniciativa. Mas a verdade, envergonho-me de to dizer, foi que os Alemães é que tomaram a iniciativa. Primeiro, alguém viu uma bandeira branca a ondular nas trincheiras do inimigo. Depois, alguém gritou:

— Feliz Natal! Feliz Natal!

Quando nos tínhamos recomposto da surpresa, alguns de nós retribuíram:

— Feliz Natal para vocês também!

Pensei que tudo ficaria por ali. Todos pensámos, aliás. Mas, de repente, vimos um deles, no seu sobretudo cinzento, a agitar uma bandeira branca.

— Não atirem, rapazes! — alguém gritou.

E logo vimos mais Alemães, uns a seguir aos outros, a aproximar-se da nossa trincheira.

— Mantenham-se em baixo — ordenei aos meus homens. — É uma armadilha.

Mas não era tal.

Um dos Alemães agitava uma garrafa no ar.

— É Dia de Natal. Temos cerveja e salsichas. Querem juntar-se a nós?

Por esta altura, já dezenas deles se dirigiam até nós, atravessando a terra de ninguém que nos separava. Nenhum deles transportava armas. O soldado Morris foi o primeiro a mexer-se.

— Vamos lá, rapazes! De que estamos à espera?

Ninguém conseguiu impedi-los. Eu era o oficial e devia ter travado tudo aquilo imediatamente. Mas nem sequer me ocorreu. Homens de ambos os lados, vestidos com sobretudos cinzentos ou com uniformes caqui, caminhavam em direcção uns aos outros, e eu era um deles. Fazia parte daquilo. No meio da guerra, celebrávamos a paz.

Não podes imaginar, querida Connie, o que senti, quando olhei, nos olhos, o oficial alemão que se aproximava de mim, com a mão estendida.

— O meu nome é Hans Wolf — disse, segurando a minha mão com firmeza e afabilidade. — Sou de Dusseldorf e toco violoncelo na orquestra da cidade. Feliz Natal!

— Sou o Capitão Jim Macpherson — respondi. — Sou professor em Dorset, no leste de Inglaterra. Feliz Natal para si, também!

— Dorset — repetiu. — Conheço muito bem esse lugar.

Partilhámos a minha ração de aguardente e a excelente salsicha dele. E falámos, falámos sem parar. O inglês dele era excelente, mas acontece que nunca tinha posto os pés em Dorset. Tudo o que sabia sobre Inglaterra tinha-o aprendido na escola e nos livros que lia em inglês. O seu escritor favorito era Thomas Hardy,e o seu livro preferido Far from the Madding Crowd. Naquela terra de ninguém, conversámos sobre Bathsheba, Gabriel Oak, Sergeant Troy e Dorset. Tinha mulher e um filho, com seis meses de idade. Enquanto olhava à minha volta, só via manchas de cor cinzenta e caqui a fumar, a rir, a comer e a beber. Hans Wolf e eu partilhámos o que restava do teu óptimo bolo de Natal. Segundo ele, o teu maçapão era o melhor que alguma vez provara. Concordei. Concordávamos em tudo, Connie, e ele era meu inimigo. Nunca houvera uma festa de Natal assim.

Alguém trouxe uma bola de futebol. Os sobretudos foram despidos e transformados em postes de balizas. O jogo começou. Hans Wolf e eu assistimos e encorajámos os jogadores, aplaudindo e batendo com os pés no chão, para afastarmos o frio. Houve um momento em que vi a nossa respiração misturar-se. Ele viu o mesmo e sorriu.

— Jim Macpherson — disse, passado um bocado — penso que é assim que esta guerra devia ser resolvida. Como um jogo de futebol. Ninguém morre num jogo de futebol. Ninguém fica órfão. Nenhuma mulher fica viúva.

— Prefiro o críquete — disse-lhe. — Assim, os Ingleses ganhariam.

Rimo-nos da minha piada e assistimos ambos ao jogo. Pena-me dizer que os Alemães ganharam 2-1. Mas Hans Wolf comentou, com generosidade, que o nosso golo fora mais bem marcado do que o deles.

Quando o jogo acabou, já há muito tinham desaparecido a cerveja, o bolo, a aguardente e as salsichas. Desejei felicidades a Hans e fiz votos de que voltasse a ver a família em breve, de que a guerra acabasse depressa, e de que todos regressássemos a casa sãos e salvos. Respondeu-me:

— Penso que é o que todos os soldados querem, sejam Alemães ou Ingleses. Tome cuidado consigo, Jim Macpherson. Nunca o esquecerei, nem esquecerei este momento.

Fez-me continência e afastou-se, devagar, como que involuntariamente. Virou-se para acenar, uma vez mais, e logo se transformou num elemento mais, entre as centenas de homens vestidos de cinzento, que regressavam às suas trincheiras.

Nessa noite, ouvimo-los entoar um belo cântico de Natal, Noite Feliz. Os nossos rapazes responderam com Enquanto os pastores observavam. Trocámos cânticos durante mais algum tempo e depois calámo-nos. Foi um momento de paz e boa vontade, que recordarei com carinho enquanto viver.


Querida Connie, no Natal do ano que vem, esta guerra não será mais do que uma recordação vaga e terrível. Sei, por tudo o que aconteceu hoje aqui, o quanto ambos os exércitos desejam a paz. Em breve estaremos de novo juntos, tenho a certeza. 

 O teu querido Jim




Dobrei a carta e coloquei-a de novo no envelope. Não contei a ninguém o meu achado: guardei para mim mesmo a vergonha da minha intrusão. Penso que foi este sentimento de culpa que me manteve toda a noite acordado. Na manhã seguinte, já sabia o que devia fazer. Apresentei uma desculpa qualquer e não fui à igreja com o resto da família. Guiei até Bridport, que ficava apenas a uns quilómetros dali. Perguntei a um rapaz, que passeava o cão, onde ficava a casa.

O número 12 não passava de uma concha vazia, com um telhado em ruínas e as janelas entaipadas. Toquei na casa ao lado e perguntei se sabiam o paradeiro de Mrs Macpherson. Um homem de idade, em pantufas, respondeu afirmativamente. Disse que era uma senhora amorosa, um pouco confusa, o que era normal, dado que tinha 101 anos. Estava em casa quando esta se incendiou. Ninguém sabia como o incêndio começara, mas pensavam que deveriam ter sido as velas. A senhora usava velas em vez de electricidade, porque achava que a electricidade era demasiado cara. O bombeiro tinha-a salvo a tempo. Agora vivia num lar chamado Burlington House, na estrada de Dorchester, do outro lado da cidade.

Encontrei Burlington House com facilidade. Havia serpentinas de papel no corredor e uma árvore de Natal iluminada estava montada num canto, com um anjinho no topo. Disse que era um amigo de Mrs. Macpherson e que viera trazer-lhe um presente de Natal. Podia ver, através da porta envidraçada da sala que estavam todos com chapéus de papel e a cantar Good King Wenceslas. A Directora também usava um chapéu e ficou contente por me ver. Até me ofereceu uma empada de carne picada. Depois conduziu-me ao quarto de Mrs. Macpherson.

— Mrs. Macpherson não está na sala com os outros, porque hoje sente-se bastante confusa. Não tem família e ninguém a visita. Tenho a certeza de que vai gostar muito de o ver.

Conduziu-me até uma estufa, cheia de cadeiras de palhinha e vasos com plantas, e deixou-me a sós com Mrs Macpherson. Esta encontrava-se sentada numa cadeira de rodas, com as mãos no regaço. O seu cabelo fino, branco e prateado, estava apanhado num rolo. Contemplava o jardim, absorta.

— Olá! — saudei.

Virou a cabeça e olhou-me com um olhar vago.

— Feliz Natal, Connie! — continuei. — Encontrei isto. Penso que é seu.

Enquanto eu falava, os olhos dela nunca se desviaram da minha cara. Abri a caixinha de folha e dei-lha. Os olhos dela iluminaram-se num reconhecimento do objecto e a sua face irradiou uma felicidade súbita. Falei-lhe da escrivaninha, de como a encontrara. Creio que não me ouviu. Ficou calada durante algum tempo, enquanto acariciava docemente a carta com os dedos.

De repente, pegou na minha mão. Tinha os olhos marejados de lágrimas.

— Bem me disseste que vinhas pelo Natal, querido. E eis-te aqui, o melhor presente de Natal do mundo. Vem para perto de mim e senta-te, meu querido Jim.

Sentei-me ao lado dela e beijou-me a face.

— Lia constantemente a tua carta. Era como se ouvisse a tua voz dentro da minha cabeça. Era uma maneira de sentir-te comigo. E agora estás mesmo. Agora que voltaste, podes ler a carta tu próprio. Queres lê-la? Só quero ouvir a tua voz de novo, Jim. Depois podemos tomar chá. Fiz-te um belo bolo de Natal em maçapão. Sei o quanto adoras maçapão.



Michael Morpurgo
The best Christmas present in the world
London, Egmont Books, 2004, 48 p.
ISBN: 9781405215183



A recordar as trincheiras daquele Natal de 1914 não podemos esquecer  as imagens atuais das trincheiras na Ucrânia em guerra. 


Que o espírito natalício invada o território ucraniano, bem como outros cenários de guerra.




FONTE:
MORPURGO, Michael; “The best Christmas presente in the world”, (Acedido em 16.12.2022) Disponível em https://www.voltimum.pt/sites/www.voltimum.pt/files/pdflibrary/08_o_melhor_presente_de_natal_do.pdf