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quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

Como a inteligência artificial afeta a aprendizagem



A inteligência artificial (IA) foi, sem dúvida, a palavra da moda em 2023. Temos IA em todo o lado, da mesma forma que há alguns anos o prefixo «Smart» foi colocado em qualquer coisa (vi na Amazon até uma Smart-torradeira…). Não tenho dúvidas de que a Inteligência Artificial vai representar uma revolução na forma como trabalhamos comparável à que houve quando o e-mail e a internet chegaram a todos os escritórios, mas também estou convencido de que estas revoluções levam o seu tempo. Ainda falta o suficiente para que possamos dizer que a Inteligência Artificial é imprescindível para o nosso trabalho como agora é o e-mail, por exemplo.

No entanto, é tal a magnitude da mudança que é bom prepararmo-nos. Os rapazes e raparigas que estão agora na escola começam a usar a Inteligência Artificial no seu dia-a-dia de modo que, quando daqui a alguns anos se juntarem ao mercado de trabalho, terão totalmente interiorizado trabalhar com uma IA. Trago para a discussão um estudo muito interessante intitulado «Impact of AI Assistance on Student Agency», onde se investiga como começa a mudar a forma como os alunos estão a aprender e o quão dependentes podem tornar-se da IA.

No estudo, os alunos que participaram foram divididos em três grupos. No grupo 1, chamado grupo de assistência de IA, cada aluno tinha um assistente digital que lhes dava conselhos contínuos sobre como melhorar suas atividades, avaliando constantemente o seu trabalho e oferecendo conselhos personalizados para, por exemplo, melhorar os comentários de texto que escreviam.

No grupo 2, grupo de lista de autocontrole, em vez de um assistente digital, cada aluno tinha uma lista de verificação para autoavaliar o seu trabalho, com perguntas referentes aos seus comentários de texto, tais como se tinham identificado claramente as ideias principais do texto, se o comprimento do comentário era adequado ou se a variedade de vocabulário empregado era suficiente. O aluno revia essa lista e podia identificar por si mesmo as suas áreas de melhoria.

No grupo 3, o grupo híbrido humano – IA, tanto a IA como a lista de verificação foram disponibilizados aos participantes. Finalmente, a ideia do estudo era avaliar qual o grupo que mostrava maior melhoria nos seus resultados e qual o método que lhes dava mais autonomia.

O resultado do estudo é muito interessante e aplicável a qualquer aspecto de trabalho. O grupo com assistência de IA melhorou os resultados, mas tornou-se absolutamente dependente da IA. Quando ela foi dispensada, o desempenho dos alunos caiu drasticamente. Ou seja, a IA foi uma ferramenta muito eficaz, mas não lhes serviu para aprender praticamente nada. O grupo híbrido humano – IA, teve um comportamento muito semelhante ao do grupo apenas IA, ou seja, a adição da lista de controle teve pouco efeito. Os alunos também se tornaram dependentes da IA.

Em suma, a IA é uma ferramenta muito poderosa, mas é verdade que usá-la gera uma espécie de falsa potencialidade. Parece que seremos capazes de fazer qualquer coisa, mas na realidade, não teremos nenhuma diferença uns dos outros. A IA gerará resultados mais ou menos semelhantes para todos, use quem a usar, se não formos capazes de aprender com ela ou melhor, de a incorporar nos nossos processos de aprendizagem. Os grandes fabricantes de software de inteligência artificial chamam aos seus aplicativos de «Copilot» (copiloto, no caso da Microsoft) ou Duet (Duo, no caso do Google) para enfatizar que a IA deve ser uma ajuda, um complemento. Mas o factor chave, aquele que dirige e marca as diferenças, deve ser a pessoa. Sem interiorizar isso, a inteligência artificial transforma-nos noutros robôs com pouca inteligência natural para aplicar.

Texto retirado de: 
BORGES, JF. TIC, Educação e Web. Disponível em https://jfborges.wordpress.com/

segunda-feira, 23 de outubro de 2023

Francisco Lousã: "O artificial torna-nos menos inteligentes"



Imagine que no Natal venha a estar disponível uma aplicação que lhe permite fazer a sua própria música a partir de uma mistura de alguns acordes de Sérgio Godinho e José Afonso, poemas da Garota Não e de Fausto Bordalo Dias e uns arranjos de José Mário Branco. Tudo possível ao carregar simplesmente num botão. Haverá direitos de autor que foram extorquidos? Nada daquilo será de sua lavra, mas boa sorte para quem tentar disputar em tribunal a precedência artística, será dificilmente identificável a inspiração de cada uma das componentes da mistura — e a aplicação pode fazer duas diferentes com os mesmos ingredientes em segundos. A indústria musical pode transmutar-se no futuro imediato e a produção artística pode esgotar-se nesse processo. Esta possibilidade suscita várias questões difíceis. Produção e meios de produção.

A primeira questão é que o meio de produção é novo. A música que sairá dessa aplicação será, ainda assim, um produto cultural, mas é uma nova forma de cultura, que eleva o pastiche, além do roubo da propriedade intelectual, a um novo patamar. A arte, neste caso, será só o simulacro da arte. Então, produzir-se-á mais não se produzindo nada e a culturas será uma forma de incultura e a inspiração uma artimanha. Para combater este risco, diversos escritores processaram as empresas que oferecem aplicações de inteligência artificial - e há hoje uma corrida nesse mercado - por terem treinado os seus algoritmos com tectos seus, sem autorização. Piratearam para ensinar um programa a piratear.

As implicações deste sistema são gerais. Antes mesmo da aplicação que estou a imaginar que finja que somos bons músicos, já há uma que permite fingir que se é um escritor, como o ChatGPT. Há já literatura escrita deste modo nas livrarias. E há um pânico nas escolas entre quem se tinha empenhado em estimular a criatividade, pedindo aos alunos que escrevessem ensaios, investigassem e fundamentassem uma opinião, em vez do exame de cruzes. Tudo isso acabou, passou a ser indistinguível um trabalho sério e um ficheiro cuspido por um algoritmo. O sistema de ensino readaptar-se-á recuando ao tempo da chamada oral. Produção e regulação.

A segunda questão é o próprio modo de produção. A sociedade moderna regula a forma de construir um automóvel ou outra máquina: há materiais aceitáveis e outros recusados, os processos são patenteados e verificáveis. Em contrapartida, produzem-se agora algoritmos inverificáveis, o meio de produção cultural do século XXI. Aplicados à criação de artefactos, sejam textos ou músicas, ou jogos, o seu modo de tomar decisões não é escrutinável: é como se fossemos proibidos de saber como funciona a caixa de velocidades do automóvel. O que tem sido mais discutido é como este algoritmo gera comunidades autocentradas e recompensa a escalada da agressividade emocional, de que os discursos de ódio são felizes utilizadores. De facto, a hipercomunicação impede os modos conhecidos de intermediação, supera em rapidez qualquer tentativa de confirmação ou desmentido, e é direccionável por uma caixa negra que, ao contrário dos outros meios de produção que existem na sociedade moderna, é extra-legal e portanto está acima do alcance da regulação. Mas há outra das suas facetas que começa a merecer atenção: a ambição de nos absorver num mundo virtual que ocupe a nossa vida, desde crianças (no Reino Unido, um quarto das crianças até aos 4 anos tem o seu aparelho para ver streaming). O projeto Metaverso esmoreceu, mas foi só o primeiro lance deste jogo.

E, na verdade, a imersão na colmeia digital já conseguiu resultados potentes. A vida virtual é uma ansiedade, altera-nos a noção de tempo, promove a multiplicidade de tarefas e impõe a necessidade de uma sociabilidade reconfortante pela trivialização da comunicação permanente. 

Na base dessa transição está a colonização da nossa capacidade de leitura e de concentração. A University College de Londres concluiu agora um estudo de cinco anos sobre os hábitos de leitura, a partir do registo das pesquisas feitas por milhões de utilizadores em duas grandes bibliotecas que oferecem acesso a jornais, textos online e outros recursos digitais. A conclusão é esmagadora:  os leitores já não leem, saltitam, ou seja, são conduzidos pelo algoritmo. Usam uma página ou duas de uma fonte, seguem para outro texto e isto "são sinais de uma nova forma de leitura em que os utilizadores buscam horizontalmente através de títulos e procuram resultados imediatos. É como se estivessem online para evitar ler no sentido tradicional", dizem os autores do estudo.

Por esta razão, a Suécia vai deixar de usar manuais escolares online, pois as crianças precisam de aprender a ler um livro. O diretor de educação da OCDE acrescenta que "quanto maior e mais frequente for a utilização da tecnologia digital na sala de aula, pior será o desempenho dos alunos (até) no teste de leitura digital". Assim, o meio de produção condiciona a nossa forma de aprender e de pensar, não só na formatação da linguagem,  como também da nossa memória e imaginação. As aplicações que parecem oferecer-nos um produto cultural, enganando os nossos amigos quanto às nossas capacidades musicais ou os professores quanto ao estudo, estão de facto a mudar o nosso padrão de atenção e a nossa capacidade de expressão.

A inteligência artificial está a mudar a humanidade tornando-a mais estúpida.

Francisco Lousã (opinião)

Fonte:

segunda-feira, 17 de julho de 2023

A fraca qualidade do ar em Portugal

Portugal condenado por estar dez anos sem travar poluição do ar. E as regras vão apertar



Portugal foi condenado pelo Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) por não cumprir as regras europeias sobre qualidade do ar ao longo de dez anos. Foi ultrapassado o limite das concentrações de dióxido de azoto (NO2) em Lisboa, Porto e Braga. O incumprimento não foi contestado pelo Governo português. A situação poderá ser corrigida com o acompanhamento da Comissão, mas já vem aí um novo desafio: a União Europeia está a preparar uma revisão da Directiva de Qualidade do Ar Ambiente que vai fazer subir a fasquia.

No acórdão proferido no final de Junho, na sequência de uma acção movida pela Comissão Europeia, o TJUE declara o incumprimento de Portugal não apenas por ultrapassar o valor-limite anual dos níveis de dióxido de azoto, fixado em 40 microgramas por metro cúbico (µg/m³), mas também por não tomar “medidas adequadas para que o período de excedência possa ser o mais curto possível”.

Os dados comunicados pelas autoridades portuguesas mostram que as concentrações de NO2 no ar nas três zonas em questão excederam “de forma sistemática e persistente” o valor-limite anual entre 2010 e 2020, falhando os artigos 13.º e 21.º da Directiva de Qualidade do Ar Ambiente, lê-se na conclusão do acórdão do TJUE.

Em resposta ao PÚBLICO, o Ministério do Ambiente e da Acção Climática confirma que o Governo está “a analisar o conteúdo do acórdão” e vai aplicar, em conjunto com a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e as Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR), “um conjunto de medidas que tenham como finalidade mitigar o valor de NO2 nos três territórios objecto da decisão de incumprimento” do TJUE.

E agora?

Caso o Estado não tome medidas adequadas e consiga cumprir os limites impostos pela directiva — ou seja, se Portugal desrespeitar o acórdão do TJUE —, a Comissão, “a guardiã dos tratados”, terá matéria para seguir em frente com o procedimento por infracção, que pode resultar numa sanção pecuniária.

Apesar de improvável, já que a Comissão prefere adoptar uma abordagem construtiva de trabalho com os Estados-membros, a multa poderia ascender a vários milhões de euros. Mas isto pode levar anos a acontecer.

Por exemplo, Portugal foi condenado em 2009 pelo TJUE por não cumprir a directiva de tratamento de águas residuais urbanas, mas só em 2016 é que, perante a continuação do incumprimento em algumas cidades, o país foi condenado a pagar uma multa de três milhões de euros, somando-se oito mil euros por cada novo dia de atraso no cumprimento da directiva.

Questionado sobre se foi dado algum prazo para cumprir as exigências, o MAAC responde que, “segundo a legislação comunitária, não existe um prazo definido para que a Comissão possa submeter nova acção por incumprimento”, mas o Governo “está extremamente empenhado” em aplicar as medidas necessárias para deixar de estar entre os Estados-membros incumpridores. Em resposta ao PÚBLICO, a Comissão Europeia refere que “ainda não entrou em contacto com o Governo português para dar seguimento a esta decisão específica, mas irá fazê-lo, como é normal.”

Francisco Ferreira, docente de Qualidade do Ar na Universidade Nova de Lisboa, recorda que não é a primeira vez que Portugal é chamado à atenção sobre esta matéria, mas, no que toca a esta directiva (aprovada em 2008), não é o pior aluno: este procedimento foi aberto contra vários países onde a situação é mais aguda, como Itália, Espanha, Alemanha, Grécia ou França, mas estes processos ainda não foram encerrados.

Portugal tem neste momento 12 procedimentos abertos pela Comissão em matérias ambientais, cinco dos quais deram origem a processos no TJUE: além dos dois já mencionados, relacionados com qualidade do ar e do incumprimento da directiva sobre águas residuais urbanas, a Comissão também decidiu levar o país ao Tribunal de Justiça no início deste ano, por não-conformidade da legislação nacional com a directiva sobre avaliação de impacto ambiental, em Julho de 2020 pela má aplicação da directiva sobre ruído (que resultou numa condenação em Março de 2022) e em Janeiro de 2018 pela má implementação da directiva habitats (que também resultou na condenação de Portugal em Setembro de 2019).

Contudo, Francisco Ferreira lamenta a falta de celeridade dos processos. Os alertas sobre concentrações de dióxido de azoto começaram em Maio de 2015 — há oito anos —, quando a Comissão Europeia enviou ao Governo português uma notificação sobre o incumprimento do valor-limite anual de NO2 no ar ambiente nas zonas Lisboa Norte, Porto Litoral e Braga (agora chamada Entre Douro e Minho), enquanto a acção no TJUE foi movida em 2021. Neste meio tempo, “continuou a ultrapassar-se” os limites sem haver consequência, o que é “altamente frustrante”, diz o também presidente da associação ambientalista Zero.

Uma pandemia em “câmara lenta”

Francisco Ferreira alerta ainda para o facto de que, em 2021, a OMS actualizou os valores recomendados sobre a qualidade do ar e a Comissão Europeia já está a preparar os ajustes necessários. Com a ambição de “Poluição Zero” até 2050 que consta do Pacto Ecológico Europeu, a Comissão apresentou em Outubro de 2022 uma proposta de revisão das directivas, fixando para 2030 normas de qualidade do ar alinhadas com as recomendações da OMS.

Com a fasquia a subir, em breve os Estados-membros terão que cumprir valores mais exigentes. No caso do dióxido de azoto (NO2), por exemplo, a proposta da Comissão é que o limite anual passe da actual média de 40 microgramas por metro cúbico — o valor registado em Lisboa em 2020 — para 20 µg/m³. O Parlamento pede mesmo que se siga a recomendação da OMS, de 10 µg/m³. O mais recente relatório sobre poluição do ar da Agência Europeia para o Ambiente, publicado no final de Junho, mostra que em mais de metade das 45 estações de monitorização da qualidade do ar os valores de NO2 contabilizados em 2021 estavam acima dos 10 µg/m³, e sete estão acima de 20 µg/m³. “Se não conseguimos cumprir os limites actuais, ainda mais dificilmente conseguimos cumprir os futuros”, alerta o investigador.

Uma das novidades propostas nesta revisão é garantir que as pessoas que sofram de problemas de saúde causados pela poluição atmosférica tenham o direito de ser compensadas se houver violação das regras de qualidade do ar da UE. Os países europeus deverão também preparar “roteiros para a qualidade do ar”, garantindo uma harmonização dos índices de qualidade do ar na UE.

Em Setembro, o Parlamento Europeu deverá votar um relatório da Comissão do Ambiente, da Saúde Pública e da Segurança Alimentar (ENVI) com propostas de melhorias do plano da CE sobre a qualidade do ar, onde os eurodeputados defendem valores-limite e objectivos mais rigorosos para 2030 para vários poluentes, incluindo partículas (PM2,5, PM10), dióxido de azoto (NO2), dióxido de enxofre (SO2) e ozono (O3), em comparação com a proposta da Comissão.

O eurodeputado socialista Javi López, relator deste processo no Parlamento Europeu (e que vai liderar a delegação que vai negociar as propostas com o Conselho da UE e a Comissão Europeia) chama à poluição atmosférica uma “pandemia em câmara lenta”, sendo urgente “seguir a ciência e alinhar as nossas normas de qualidade do ar com as orientações da OMS e reforçar algumas das disposições da presente directiva”.

Falta de dados e de vontade

Apesar de o incumprimento não ter sido contestado pelo Governo português, o acórdão do TJUE admite que existem lacunas nas medições dos níveis de poluição do Porto e de Braga, algo que poderá ter acontecido por questões diversas, como a localização dos medidores ou até uma possível avaria.

Francisco Ferreira nota que, mesmo que se verifique que os níveis estão em ordem nestas zonas, “não há planos de melhoria da qualidade do ar nem programa de execução” nestes territórios, existindo apenas medidas dispersas, o que, por si só, mostra a falta de importância dada ao assunto.

Já em Lisboa o problema é mais conhecido, mais persistente e mais difícil de resolver, e nem o mote da Capital Verde Europeia 2020 foi suficiente para a transformação. Os níveis registados na Avenida da Liberdade, alerta Francisco Ferreira, “estão piores do que em 2020 e 2021”, que foram “os únicos anos em que, no limite, se respeitou o valor”. “É absolutamente escandaloso”, caracteriza o investigador da UNL.

Este deslize, diz, é “resultado de não haver consenso” sobre as medidas a tomar, com a autarquia a “não assumir as medidas que estão previstas”, como limitar os carros mais antigos e reduzir o tráfego, actualizando as Zonas de Emissão Reduzida. “Estamos mesmo a falhar em termos dessa concretização. As autarquias e Governo não estão a ter capacidade de resposta.”

O caminho, sublinha, não deve ser o de criar proibições sem uma estratégia, mas antes “repensar como é que deve ser o centro da cidade em termos de melhoria da qualidade de vida”.

“A oportunidade fantástica poderia ter sido a pandemia”, nota Francisco Ferreira. As pessoas comentavam como era “fantástico” ouvir os pássaros, não ouvir os carros, ter menos poluição. “Já esquecemos isto tudo”, lamenta, recordando notícias recentes que dão conta de que o consumo de combustíveis rodoviários em Maio cresceu 10% face ao período homólogo anterior, numa “tendência oposta ao que é necessário”.

A solução, defende, são “políticas de redução de emissões a sério” que limitem o uso do carro nos centros das cidades, algo que “começa a ser o grande objectivo de cidades médias e grandes”. Isto não é impossível: cidades como Utrecht, nos Países Baixos, só têm transportes públicos e bicicletas no centro. Mas isto passa por investimento público em transportes públicos de qualidade e por uma mudança quase cultural, já que “as pessoas amam o carro”, comenta Francisco Ferreira.

E terá que passar também por uma abordagem mais integrada, com políticas que combinem a redução das emissões de poluentes do ar ambiente, mas também do dióxido de carbono e outros gases que alimentam o aquecimento global — uma vez mais, voltamos à área dos transportes. “O sítio fundamental para aplicar estas medidas são as cidades.”

Morrer mais cedo por causa do ar que respiramos para viver


Todos os anos, cerca de 300 mil pessoas morrem prematuramente na União Europeia devido à poluição do ar, descrita como “o problema mais grave de saúde ambiental na UE” e causa de “danos significativos aos ecossistemas”. 

No relatório Impactos da Poluição Atmosférica na Europa, os valores para Portugal demonstram que em 2019 a exposição a partículas finas esteve associada a 4900 mortes prematuras; na exposição a NO2, o balanço é de 540 mortes prematuras; e sobre os danos causados pelo ozono (O3) as estimativas somam mais 270 mortes prematuras em Portugal em 2019.

No total, as mortes associadas a estes três poluentes em Portugal passaram de 5830 (em 2016) para 6020 (em 2018), mas agora terá sido possível inverter a anterior tendência de aumento com uma ligeira diminuição da estimativa para 5710 óbitos prematuros em 2019.

Os impactos da poluição atmosférica custam à sociedade europeia, todos os anos, entre 231 mil milhões e 853 mil milhões de euros, segundo dados da Comissão Europeia. 

Segundo a associação ambientalistas Zero, a poluição do ar em Portugal “é responsável pela morte prematura de cerca de 6000 pessoas todos os anos”, estando associada ao surgimento ou agravamento de doenças como acidentes vasculares cerebrais, problemas de coração, cancro do pulmão e doenças respiratórias.

Dados da Agência Europeia para o Meio Ambiente (AEA), divulgados em Abril deste ano, referem ainda que a poluição do ar causa mais de 1200 mortes prematuras anualmente em crianças e jovens menores de 18 anos na Europa. “Crianças e adolescentes são particularmente vulneráveis à poluição do ar porque os seus corpos, órgãos e sistemas imunológicos ainda estão em desenvolvimento”, alerta a AEA.

No estudo é referido que, embora o número de mortes nessa faixa etária seja relativamente baixo em comparação com outras, tal representa uma perda de potencial futuro e uma carga significativa de doenças crónicas, tanto na infância como posteriormente. As funções pulmonares das crianças e o desenvolvimento pulmonar são afectados principalmente pelo ozono e pelo dióxido de nitrogénio a curto prazo e por partículas finas transportadas pelo ar a longo prazo.

Por outro lado, a poluição do ar também explica o diagnóstico de uma fatia de casos de cancro de pulmão em não-fumadores, segundo um estudo recente publicado na Nature. A poluição do ar por partículas finas – presentes no fumo de escape dos automóveis e nos gases dos combustíveis fósseis – pode desencadear a proliferação de mutações preexistentes em células pulmonares, o que leva ao aumento da progressão do tumor, sugere o artigo do qual Charles Swanton é co-autor. Assim, não-fumadores que vivem em áreas muito poluídas têm maior probabilidade de desenvolver cancros de pulmão do que aqueles que habitam zonas com baixa poluição atmosférica.

Texto retirado de:
FLOR, Aline. Portugal condenado por estar dez anos sem travar poluição do ar. E as regras vão apertar. Azul: Público, 16.07.2023. Acedido em https://www.publico.pt/2023/07/16/azul/noticia/portugal-condenado-estar-dez-anos-travar-poluicao-ar-regras-vao-apertar-2056274?utm_source=notifications&utm_medium=web&utm_campaign=2056274 


sábado, 22 de abril de 2023

Dia Mundial da Terra

Hoje, 22 de abril de 2023, comemora-se a 53ª edição do Dia da Terra, uma iniciativa surgida em 1970, para destacar a importância de nosso planeta e a conservação de seus ecossistemas em todos os continentes e oceanos. 

A celebração deste ano, sob o tema Investir no nosso planeta, pretende destacar a importância de dedicar o nosso tempo, recursos e energia no combate às alterações climáticas e apelar para uma vida mais sustentável: "Aja (corajosamente), inove (amplamente) e implemente (equitativamente). Empresas, governos e cidadãos: todos representados e todos responsáveis.

Assim chama-se a atenção para a emergência climática eo ativismo climático, através dos documentários Ordinary Protest, realizado por Mikhail Karkis, e Bigger than us, de Flore Vasseur, sobre eco feminismo e o poder do ativismo de crianças e jovens, que damos a conhecer nos seguintes vídeos: 

1. Mikhail Karikis: No Ordinary Protest



2. Trailer No Ordinary Protest



3. Trailer Bigger than us, de Flore Vasseur (2021)


4. Sitio web do documentário Bigger than us >>

O jornal Público preparou para este dia uma reportagem sobre a erosão costeira que afeta cada vez mais o litoral português e que pode ler aqui

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

A frase também merece atenção | Artigo



Natalie Wexler explica-nos por que razão é importante insistir na escrita de frases complexas. É uma ajuda inestimável à compreensão de textos.



É possível que seja por estarem pouco habituados à estrutura complexa de muitas frases escritas que alguns alunos não conseguem compreender aquilo que leem. Ensiná-los a escrever frases complexas sobre o assunto que estão a estudar pode ser uma ajuda.

Tal como o investigador da leitura Timothy Shanahan salientou, há muita investigação científica sobre a forma como os alunos aprendem a decifrar cada palavra escrita, e também acerca da compreensão global do sentido de um texto, mas não tanto sobre a tal «frase à qual ninguém presta atenção». Ainda assim, a verdade é que problemas de discernimento das frases podem criar entraves à compreensão.

Mais recentemente, Shanahan debruçou-se sobre a investigação que existe. Talvez a questão se prenda mais, como o autor aponta, com o aumento súbito dos estudos sobre a frase nos últimos anos, mas algumas das publicações que Shanahan refere remontam à década de 80.

Apesar de não haver conclusões definitivas, Shanahan afirma que os dados são suficientes para os professores «avançarem com alguma prudência» no ensino da frase. O autor oferece uma série de recomendações para o fazer, mas apenas uma delas implica a escrita.

Isto é natural, porque Shanahan se concentrou no que já foi estudado. Tal como referimos antes, a escrita não tem sido analisada de forma muito ampla, sobretudo se o compararmos com a extensa investigação de que a leitura foi alvo. Além disso, fez-se muito pouca pesquisa sobre a aprendizagem da frase, e menos ainda sobre frases acerca do conteúdo curricular. Mas dado aquilo que sabemos sobre o funcionamento da mente humana, essa escassez de investigação não deveria impedir os professores de avançarem nessa direção. E não diria que tem de ser «com alguma prudência». Defendo que devem ir em frente.

Razões para o êxito da instrução ao nível da frase

Está comprovado que é mais fácil adquirir informação nova — aprender — quando se tem conhecimento prévio relevante. Na leitura, podemos saber à partida alguma coisa sobre o assunto do texto que estamos a ler, mas também importa a cultura geral, o vocabulário e o nosso entendimento sobre o modo de construção das frases, a sintaxe.

Em termos sintáticos, a linguagem escrita é por norma mais complexa do que a oral. Em particular quando os textos se tornam mais elaborados, começam a incluir construções como orações subordinadas, a voz passiva e uma maior distância entre o sujeito e o objeto (em vez de «O cão passou a correr pelo homem», podemos ter algo como «O cão com pelagem às manchas, castanha e branca, apesar de cansado de correr tanto, passou ainda assim a correr pelo homem de fato cinzento»). Mesmo que os alunos consigam entender conversas, ou até frases escritas em textos simples, podem ter dificuldades em interpretar o tipo de frases que surge muitas vezes em conteúdos escritos do ensino secundário ou nos jornais.

Há vários estudos que demostram que a compreensão de um texto é facilitada pelo domínio prévio do seu tema por parte dos leitores.

Isto pode acontecer mesmo que os estudantes já conheçam bem o assunto do texto. Há vários estudos que demostram que a compreensão de um texto é facilitada pelo domínio prévio do seu tema por parte dos leitores. Uma das investigações mais famosas nos Estados Unidos, conhecida como «o estudo do basebol», concluiu que na leitura de textos sobre este desporto, «leitores fracos» especialistas em basebol ultrapassaram «leitores bons» que não conheciam tão bem este desporto. Mas o excerto que lhes foi dado a ler era bastante simples: à exceção dos termos técnicos, tratava-se de uma descrição bastante clara de uma partida de basebol. Esses mesmos especialistas teriam certamente de se esforçar muito para conseguirem compreender uma tese de doutoramento sobre algum aspeto desse jogo.

Uma cientista que se tem vindo a debruçar sobre a frase, Cheryl Scott, partilhou num artigo o caso de um menino de dez anos que conseguia ler com propriedade e fluência, mas que tinha dificuldades em interpretar o que lia. O menino ouviu a leitura de um texto com a seguinte frase: «Rachel Carson, que era cientista, escritora e ecologista, cresceu na pequena cidade de Springdale, na Pensilvânia.» Os cientistas pediram depois à criança que lhes dissesse aquilo que tinha aprendido sobre Rachel Carson. «Elas cresceram juntas, na mesma cidade», respondeu ele. Para o menino, o sujeito da frase não era Rachel Carson, mas sim três pessoas diferentes: uma cientista, uma escritora e uma ecologista — porque estas palavras estavam mais próximas do verbo. Este tipo de erro não é incomum, como afirma Scott.

É óbvio que é importante conseguir identificar estes erros de interpretação. Podemos pedir aos alunos que expliquem, oralmente e por palavras deles, uma frase complexa que acabaram de ler ou que leiam a frase outra vez com uma entoação diferente — ambas práticas que Shanahan recomenda. Mas não seria ainda mais útil ensinar os alunos a construir frases complexas por si próprios? Se uma pessoa conseguir aprender a usar frases como a da descrição de Rachel Carson no exemplo anterior — em gramática chama-se um aposto[1] —, não estará mais bem preparada para conseguir interpretar uma frase semelhante quando a ler?

Exercícios de escrita e compreensão de frases

Shanahan recomenda dois exercícios de escrita: a junção e a redução de frases. O primeiro implica transformar várias frases simples numa frase mais complexa. A redução de frases faz o oposto.

Estes exercícios são úteis até certo ponto, mas é claro que, para conseguirem fazer uma boa junção de frases, os alunos precisam muitas vezes de instruções detalhadas sobre as palavras que podem usar: um aposto, por exemplo, ou uma conjunção subordinada como «embora». Há muitos alunos que não conseguem ganhar habilidade para usar este tipo de estruturas frásicas apenas através da leitura.

Quando escrevem sobre aquilo que estão a aprender, os estudantes reforçam tanto a compreensão como a memória.

Além disso, estas recomendações descuram a ligação entre a escrita e a aprendizagem. Vários estudos concluíram que, quando os estudantes escrevem sobre aquilo que estão a aprender, qualquer que seja o tema, reforçam tanto a compreensão como a memória. A ciência cognitiva explica porquê: um método muito eficaz de garantir que a informação é armazenada na nossa memória de longo prazo e que a conseguimos reaver mais tarde consiste em citá-la de cor e explicá-la a outra pessoa por palavras nossas. No fundo, isto é o que fazemos quando escrevemos.

Estudos sobre «escrever para aprender» poderão na verdade ter menosprezado os benefícios desta atividade porque, em termos gerais, não se debruçaram sobre a escrita ao nível da frase. Escrever é difícil, bem mais difícil do que ler, e escrever com pormenor é ainda mais difícil. É possível que os alunos tivessem mais capacidade cognitiva para compreender e reter informação se fossem orientados na escrita de frases curtas e isoladas sobre o tema.

Faria portanto sentido pedir aos alunos que se dediquem à junção e redução de frases sobre o conteúdo a aprender. Mas há outros exercícios sintáticos que podem ser ainda mais úteis à aprendizagem. Quando os estudantes juntam frases, ou as encurtam, as frases de que dispõem têm toda a informação de que precisam. Por exemplo, um exercício de junção de frases pode começar assim:

Rachel Carson foi cientista.
Rachel Carson foi escritora.
Rachel Carson foi ecologista.
Rachel Carson cresceu em Springdale, na Pensilvânia.

Um aluno seria capaz de juntar as frases anteriores para criar uma frase complexa, caso tivesse aprendido a usar o aposto: Rachel Carson, cientista, escritora e ecologista, cresceu em Springdale, na Pensilvânia.

E se, em alternativa — e depois de ter aprendido quem foi Rachel Carson — se desse ao aluno a seguinte frase para completar:

Rachel Carson, ____________________________________, cresceu em Springdale, na Pensilvânia.

Para o fazer, o aluno teria de recuperar informação da qual talvez já se tivesse esquecido e de encontrar vocabulário para a expressar, aumentando a probabilidade de compreender e de recordar essa mesma informação. Ao mesmo tempo, o aluno estaria a aprender uma construção frásica que reforça as suas capacidades de escrita e de leitura.

Este exercício de criação de frases integra, com muitos outros, um método chamado «A Revolução da Escrita». (Sou coautora de um livro com o mesmo título; o método foi desenvolvido pela outra autora, Judith C. Hochman.) Este método vai além das frases, propondo a criação de textos argumentativos, mas as práticas ao nível da frase são alicerces fundamentais para a escrita autónoma de segmentos mais extensos.

É bom ver um investigador da área da leitura com a influência de Shanahan a defender a ideia de que precisamos de dar mais atenção à frase. Tenho esperança de que este e outros autores reforcem tal interesse e se concentrem em temas que vão além da instrução da leitura, tais como a ligação crucial que existe entre a leitura e a escrita, a construção de conhecimento e o desenvolvimento de vocabulário. O progresso nestes temas possibilitam tanto a escrita como a leitura.

[1] Na terminologia gramatical adotada oficialmente, o aposto passou a designar-se por modificador de nome apositivo.

Fonte:
Teresa e Alexandre Soares dos Santos - Iniciativa Educação. A frase também merece atenção: crónica. (2022). 9 de dezembro de 2022. Acedido em https://www.iniciativaeducacao.org/pt/ed-on/artigos/cronicas/a-frase-tambem-merece-atencao

sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

Gaslighting é palavra do ano



Gaslighting é a palavra do ano, diz dicionário Merriam-Webster.


Gaslighting é utilizado para definir um tipo de manipulação psicológica. A palavra surgiu em 1938 numa peça teatral.

Sem equivalente em português, o termo é descrito pelo mais famoso dos dicionários americanos como “manipulação psicológica de uma pessoa, geralmente por um longo período de tempo, o que faz com que a vítima questione a validade dos seus próprios pensamentos”.

O Merriam-Webster aponta, no entanto, que o significado de gaslighting se tornou nos últimos anos ao mesmo tempo mais amplo e mais simples: “Ato ou prática de enganar grosseiramente alguém, especialmente para vantagem pessoal”.  Segundo o dicionário, houve aumento de 1.740% das pesquisas de gaslighting em 2022.

A palavra surgiu em 1938 numa peça teatral do dramaturgo britânico Patrick Hamilton. Na trama, que serviu de inspiração para a última obra escrita por Jô Soares, um homem tenta fazer a sua esposa acreditar que está a enlouquecer quando ela aponta que a intensidade das luzes da casa está a diminuir.

A impressão da mulher estava correcta — o efeito sobre as luzes era provocado por actividades misteriosas do marido no sótão —, mas o homem insistia em negar qualquer alteração e tentava convencê-la de que ela não deveria confiar nas suas percepções.

Nesse contexto, o termo gaslighting é frequentemente utilizado para se referir a um tipo de violência de género — a manipulação psicológica de mulheres pelos seus parceiros —, embora essa definição não seja citada pelo Merriam-Webster.

“Ao contrário da mentira, que tende a ocorrer entre indivíduos, e da fraude, que tende a envolver organizações, o gaslighting aplica-se tanto a contextos pessoais quanto políticos”, diz o comunicado divulgado no site oficial do dicionário.

O Merriam-Webster exemplifica alguns usos da palavra; o gaslighting médico, em que profissionais da saúde desdenham ou minimizam relatos dos pacientes; o gaslighting como forma de fugir de discussões e nunca admitir erros; e o gaslighting de empresas de combustíveis fósseis que se vendem como parte da solução da crise climática sem alterar os seus modelos de negócio.

“Nos últimos anos, com o grande aumento de canais e de tecnologias utilizadas para enganar, gaslighting tornou-se a palavra preferida para a percepção de engano”, diz o Merriam-Webster. “É por isso que ganhou o lugar como a nossa palavra do ano.”

No início deste mês, o dicionário Collins também escolheu uma palavra para o ano de 2022. No caso da publicação britânica, a escolha foi “permacrise”, termo que descreve a sensação de viver em um período prolongado de instabilidade e insegurança.

A palavra foi usada pela primeira vez no ambiente académico em 1970, mas proliferou em citações nos últimos meses devido a eventos como a Guerra da Ucrânia, a subida dos preços na Europa e a crise climática.
 
Fonte:

Mulheres, Vida, Liberdade | artigo de opinião



Na República Islâmica que pretende tutelar os seus corpos, as mulheres iranianas vivem sem liberdade e sem futuro.








Susana Peralta
2 de Dezembro de 2022


“Mulheres, Vida, Liberdade” coloca simbolicamente a justa luta das mulheres iranianas no centro de uma mais vasta, pela vida e pela liberdade de todo um povo. A morte de Mahsa Amini foi uma faísca num rastilho pronto a incendiar.

Segundo o Global Gender Gap Report do Fórum Económico Mundial, de março de 2021, o Irão estava em 150.º lugar, de 156 países, na igualdade de género. As mulheres ganham em média 18% do que os homens ganham, apenas 19% participam no mercado de trabalho e por cada mulher em lugares de poder político e económico havia quatro homens. No parlamento, eram 6%. Isto, apesar de o Irão ter as mulheres mais instruídas do Médio Oriente.

Dois terços das mulheres iranianas foram vítimas de violência de género pelo menos uma vez na vida. Os crimes de honra são comuns no país. A primeira lei que penaliza a violência contra as mulheres foi aprovada em 2021 pelo anterior governo, mas ainda não está em vigor. A lei tinha sido acusada por ativistas de ter falhas graves, como não penalizar o rapto conjugal.

Na República Islâmica que pretende tutelar os seus corpos, as mulheres iranianas vivem sem liberdade e sem futuro. A polícia de costumes, que se tornou mais repressiva desde a subida ao poder de Ebrahim Raisi, prende e tortura mulheres por dá-cá-aquela-palha. A jovem curda Mahsa Amini foi morta pela polícia de costumes por porte irregular do véu islâmico. Reparem: uma peça de roupa (que não sabemos se Mahsa usava por opção ou por imposição) mal-enjorcada, como diria a minha avó.

Mahsa entrou em coma na esquadra da polícia. Testemunhas afirmam que terá sido agredida na cabeça. Quando caiu no chão, colapsada, não terá recebido assistência médica imediata, apesar dos gritos de alerta das outras detidas. O que é certo é que a família de Mahsa, que a viu ser levada à força pela polícia no dia 13, só voltou a ter contacto com a jovem já em coma, no hospital. O inquérito oficial à morte de Mahsa identificou um tumor cerebral como causa de morte.

Desde então, as ruas do Irão encheram-se de manifestantes que arriscam a vida sob o mote “Mulheres, Vida, Liberdade”. A repressão tem sido pesada: as ONG denunciam quase 400 mortos e mais de 16 mil detidos. O governo instituiu entretanto a pena de morte para os manifestantes e já condenou 21 pessoas, com o objetivo de espalhar o terror e dissuadir quem protesta.

Há uma semana, a 35.ª sessão especial do Conselho de Direitos Humanos da ONU, dedicada à “deterioração da situação de direitos humanos na República Islâmica do Irão, especialmente no que diz respeito às mulheres e às crianças”, aprovou a criação de uma missão para averiguar as violações de direitos humanos no país. Votaram contra Arménia, China, Cuba, Eritreia, Paquistão e Venezuela. De entre os 16 países que se abstiveram, destaca-se o Qatar, anfitrião de um evento desportivo organizado por uma associação que se diz “firme no seu compromisso de proteger e promover os direitos humanos”.

Khadijeh Karimi, a representante iraniana na reunião, em representação da vice-presidente para as Mulheres e os Assuntos Familiares do governo do Irão, papagueou o mantra dos protestos instigados pela “reação enviesada e apressada de algumas autoridades ocidentais” e pela sua “intervenção nos assuntos internos do Irão”, que “tornaram as reuniões pacíficas em motins e violência”. Quatro dias mais tarde, viria a confirmação oficial do regime, pela boca do Ministro dos Negócios Estrangeiros: “o Irão não cooperará com o comité político formado pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU”. A vice-presidente em questão, Ensieh KhazAli, é a única mulher do governo. O site do Conselho Nacional da Resistência do Irão, numa publicação de setembro de 2021, cita-a nestes termos: “Os homens não gostam que as mulheres saiam muito de casa. O meu marido até definiu um limite de 15 horas por semana para o meu trabalho fora de casa. O meu marido espera que eu aceite sempre o que ele diz, e eu assim faço.”

O Relatório 2021/22 da Amnistia Internacional, publicado em março, pinta o retrato de um país profundamente repressivo, no qual as mulheres, a comunidade LGBTI, as minorias étnicas e os dissidentes políticos enfrentam a prisão, a tortura e a morte. As redes sociais estão bloqueadas. As penas judiciais incluem flagelações, amputações e enucleação (ou seja: remoção do globo ocular). O Irão detém o recorde de condenações à morte per capita. É prática comum negar cuidados médicos necessários aos detidos (como atesta a falta de assistência a Mahsa). Entre janeiro de 2010 e setembro de 2021, houve pelo menos 72 mortes suspeitas de detidos. Segundo os Repórteres Sem Fronteiras, mais de mil jornalistas foram detidos, torturados (e alguns mortos) no Irão, desde 1979. O uso de força desproporcional contra os manifestantes é usual. Em julho de 2021, onze manifestantes que protestavam contra a falta de água em duas províncias do país morreram alvejados por agentes da autoridade.

O presidente Ebrahim Raisi (que tomou posse em agosto de 2021) esteve implicado na prisão, tortura e execução de vários milhares de opositores políticos em 1988. O responsável da ONU pela investigação das violações de direitos humanos no Irão apelou a um inquérito internacional independente acerca dos abusos do final da década de 80 e ao papel do novo presidente nos mesmos. Quando confrontado com as acusações, este retorquiu “Se um juiz ou um procurador defendeu a segurança do povo, ele deveria ser elogiado. Tenho orgulho de ter defendido os direitos humanos em todos os cargos que ocupei até agora.” É torcionário e orgulha-se.

A elite política e religiosa, profundamente corrupta, vive vidas faustosas à custa da miséria do povo. Dados oficiais de 2020 mostravam que metade da população era pobre. No último ano, o preço dos bens alimentares aumentou quase 90%. Uma em cada três crianças não tem alimentos suficientes e o trabalho infantil é comum.

A miséria leva as famílias a casarem cedo as suas meninas: as estatísticas oficiais registam 100 casamentos de crianças menores de 15 anos por dia e entre março de 2021 e janeiro de 2022 há registo de 172 casamentos de meninas entre os 5 e os nove anos. São novas para serem exploradas sexualmente, mas há uma sinistra coerência nisto tudo: a idade de responsabilidade criminal é de 9 anos para as raparigas e 14 para os rapazes, segundo a Human Rights Watch. Na prática, isto permite a um juiz condenar alguém à morte por atos cometidos antes dos 18 anos. Não nos admiremos, por isso, com as 58 crianças mortas nos protestos, contabilizadas até agora pelas ONG. Um regime que mata as suas próprias crianças não pode ter futuro.

Nasrin Sotoudeh, advogada iraniana, ativista de direitos humanos, condenada a 38 anos na cadeia, está em prisão domiciliária em Teerão. No dia 18 de novembro ganhou o prémio Robert Badinter pela sua luta contra a pena de morte. O seu discurso, lido por um representante, rezava assim: “Eu, Nasrin Sotoudeh, advogada e prisioneira política no Irão, peço a todo o mundo que seja os olhos e os ouvidos dos iranianos durante estes dias difíceis. Dias que veem os jovens que usaram o seu direito legal a participar no movimento Mulheres, Vida, Liberdade condenados injustamente à morte.” Este texto é o meu modesto contributo para o desejo de Nasrin Sotoudeh.

Professora de Economia na Nova SBE.

Fonte:

domingo, 5 de junho de 2022

O ambiente em Portugal através de 5 indicadores



A Pordata, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, divulga um relatório com dados em cinco áreas: ‘Clima e Emissões de Gases com Efeito de Estufa’, ‘Água e Saneamento’, ‘Energia’, ‘Resíduos’ e ‘Território, Biodiversidade e Proteção Ambiental’, que ajudam a entender como é que o país evoluiu e onde deve melhorar na proteção do meio ambiente.

1. Clima e Emissões de Gases com Efeito de Estufa (GEE)

De acordo com a Pordata, os dados das temperaturas médias mensais referentes às estações meteorológicas de Viana do Castelo, Porto, Bragança, Castelo Branco, Lisboa, Beja, Faro, Angra do Heroísmo e Funchal apontam para uma subida gradual da temperatura média do ar.

Em 2019, as emissões em Portugal subiram 13% em relação às registadas em 1990, tendo 2005 ficado marcado como o cujas emissões foram as mais elevadas, tendo subido 46% em relação a 1990. Contudo, desde esse ano, as emissões têm estado em queda, com exceção do período compreendido entre 2014 e 2017.

Portugal foi o 4.º país do bloco europeu a registar a maior subida face a 1990, sendo que apenas outros quatro países tiveram um aumento das suas emissões – Chipre, Irlanda e Espanha, com Áustria a ocupar o 5.º lugar.

Na União Europeia, de acordo com a Pordata, as indústrias de energia são o principal responsável pelas emissões de GEE para a atmosfera, dos quais 25% dessas emissões se registaram em 2019, seguido pelo sector dos Transportes, que representou 23%.

Em Portugal, os transportes são o principal responsável – 28% do total de emissões de GEE -, seguido pelas indústrias de energia – 20,5%.

“A emissão de GEE a partir do sector dos transportes tem aumentado, em termos absolutos, desde 2013, tanto em Portugal como na UE27. Portugal registou, assim, em 2019 um aumento de 12%, face a 2013, nas emissões de GEE a partir dos transportes, após uma trajetória decrescente registada desde 2002”, refere o gabinete da Pordata no relatório.

2. Água e Saneamento

De acordo com a Pordata, em 2019, foram gastos quase 673 mil milhões de litros de água em Portugal. Desde 2012, o consumo de água em Portugal mantém-se entre os 628 a 683 mil milhões.

Em 2020, 99% da água canalizada era segura para consumir. No início do século XXI, mais de ¾ da água canalizada era segura para consumo, sendo que, há cerca de 30 anos, em 1993, apenas 50% podia ser consumida de forma segura.

A Pordata reuniu ainda informação sobre a qualidade da água das praias costeiras e interiores. Em 2020, Portugal foi o 9.º país da União Europeia entre os 22 países com orla costeira com maior percentagem de águas balneares costeiras com qualidade excelente (93%), acima da média europeia (88%). Na Polónia e na Estónia, menos de metade das praias costeiras tinha água de qualidade excelente.

No que diz respeito às águas balneares interiores, Portugal ocupava o 13.º lugar dessa lista (com 75% destas com qualidade excelente), abaixo da média europeia de 78%.

3. Território, Biodiversidade e Proteção Ambiental

Em 2018, metade do território português era ocupado por ecossistemas florestais, naquela que era a 7.ª maior percentagem do bloco europeu, acima da média europeia de 44%; atualmente, os países com maior percentagem de florestas são a Finlândia, com 70%, a Suécia, com 67%, e a Eslovénia com 63%.

No ano passado, acima de de 1/5 do território terrestre português correspondia a áreas protegidas, incluindo a Rede Natura 2000.

Portugal era o 16.º país com maior percentagem de área protegida da UE, abaixo da média europeia de 26%.

“Mais de metade do Luxemburgo estava ocupado por áreas protegidas (52%), seguido pela Bulgária (41%) e pela Eslovénia (41%). A Finlândia (13%), a Irlanda (14%) e a Suécia (14%) eram os países com menor percentagem”, refere o relatório.

Quanto às áreas marinhas, Portugal era o 3.º país com maior superfície protegida em 2019 – 77 mil km2, inferir à superfície de Portugal continental (89 mil km2).

“Nos últimos 40 anos, 2017 foi o ano com mais área ardida – mais de 500 mil hectares, o que corresponde a 6% do território continental. Mas não foi o ano com mais incêndios: em 2005 houve mais de 41 mil incêndios. Em 2020, houve quase 10 mil incêndios e arderam 67 mil hectares”, é sublinhado no documento.

4. Energia

Em Portugal, em 2020, as energias renováveis correspondiam a 98% do total de energia produzida no país, uma percentagem muito acima da média do bloco europeu, que é de 41%.

De acordo com a Pordata, os tipos de energia renovável mais utilizados na produção em Portugal foram biomassa – 51% -, energia eólica – 16%-, energia hídrica – 16% -, energia solar – 4% – e energia geotérmica – 3%.

“Apesar da biomassa ser a fonte mais utilizada, esta tem tido uma trajetória descendente. Em 1990, correspondia a 76% da energia gerada por fontes renováveis. A energia hídrica varia muito consoante o nível de pluviosidade do ano em causa. A energia eólica tem tido um grande crescimento desde 2005, ano em que apenas representava 4% da produção por energias renováveis. Tanto a energia solar como a energia geotérmica, apesar de terem multiplicado os seus valores, ainda contribuem residualmente para o total da produção de energias renováveis”, é explicado no relatório.

A fonte de energia final mais consumida em 2020 foi o petróleo (41%), seguida da energia elétrica (26%), as energias renováveis (19%), o gás (11%) e os combustíveis sólidos (como por exemplo o carvão) (0,1%).

“O consumo final de petróleo tem tido uma trajetória decrescente desde 1998, quando 61% da energia consumida provinha desta fonte. Em sentido contrário, tem aumentado o consumo do gás (+67%), de energias renováveis (+20%) e da energia elétrica (+16%), face a 2001”, aponta o documento.

“Em 2020, as famílias portuguesas foram as segundas da UE27 que menos consumiram energia, por habitante, tal como em 2019, ano de pré-pandemia. Só as famílias de Malta consumiram menos energia. As famílias da Finlândia consumiram mais do triplo e as do Luxemburgo 2,5 vezes mais do que em Portugal”.

5. Resíduos

Em 2020, foram produzidos em Portugal se cerca de 5,3 milhões de toneladas de resíduos urbanos, o que corresponde a cerca de 513 kg por habitante durante o ano, ou seja, 1,4 kg por dia.

A produção de lixo em Portugal aumentou cerca de metade e no bloco europeu subiu 14% desde 1995.

“Em 2020, em Portugal, os resíduos urbanos tratados tiveram como principal destino o aterro (54%), ao passo que na UE27 correspondeu a 23%. Assim, na UE27 o principal destino do lixo é já a reciclagem (30%), valor que em Portugal atinge apenas 13%”, é mencionado no relatório.

“Os resíduos têm também como destino a incineração com recuperação de energia (28% na UE27 vs 19% em Portugal) e a compostagem (18% na UE27 vs 14% em Portugal). No entanto, os pontos de partida de Portugal e da UE27 eram muito diferentes: em 1995, 90% do lixo em Portugal ia para aterro, ao passo que na UE27 esse valor era de 65%. A reciclagem, por sua vez, era de 1% em Portugal quando na UE27 era já de 12%”.

Fonte: 
AMADO, Inês. Dia Mundial do Ambiente : como está a situação em Portugal em 14 pontos.(2022, 05 de junho) Jornal Económico. Acedido em 05.06.2022 em https://jornaleconomico.pt/noticias/dia-mundial-do-ambiente-como-esta-a-situacao-em-portugal-em-14-pontos-901809

sábado, 5 de março de 2022

Eu, mulher : por uma nova visão do mundo | Testemunho

Título: Eu, mulher : por uma nova visão do mundo
Autor: Paulina Chiziane
Editora: Gala-Gala
Data de publicação: 2021
N.º páginas: 33 p.

“Eu, mulher… Por uma nova visão do mundo” é um testemunho de Paulina Chiziane escrito em 1992 e publicado em meados de 1994, por iniciativa da UNESCO em fase dos preparativos da Conferência Internacional sobre a Mulher, Paz e Desenvolvimento, realizada em Pequim, em 1995. Publicado em livro, no Brasil, em 2018, chega a Moçambique pelas mãos da Gala-Gala Edições, com o prefácio da professora e crítica literária Sara Jona Laisse. Este é um testemunho fascinante sobre a condição da mulher, em geral, e da mulher moçambicana, em particular, foi autorizado pela autora para integrar a Revista Abril, vol. 5, n° 10, de Abril de 2013.



<<Deus disse: “não é bom que o homem esteja só”. Adormeceu-o, tirou uma das suas costelas e transformou-a em mulher. O homem disse: “é o osso dos meus ossos e carne da minha carne”. Mas a mulher fez-se parceira da serpente. Tomou a fruta da árvore proibida, comeu-a. Sentindo-a deliciosa deu-a ao homem. Ambos abriram os olhos para o bem e para o mal. Por isso Deus amaldiçoou a mulher e disse: “multiplicarei os tormentos da tua gravidez. Serás governada pelo homem que será teu senhor”. 

Os problemas da mulher surgem desde o princípio da vida, de acordo com as diversas mitologias sobre a criação do mundo. Na mitologia bantu, depois da criação do homem e da mulher, não houve maldição nem pecado original. Mas foi o homem que surgiu primeiro, ganhando, deste modo, uma posição hierarquicamente superior, que lhe permite ser governador dos destinos da mulher. Isto significa que a difícil situação a mulher foi criada por Deus e aceite pelos homens no princípio do mundo.

As diversas mitologias não são mais do que ideologias ditadas pelo poder sob a máscara da criação divina.

Comparo a mulher à terra porque lá é o centro da vida. Da mulher emana a força mágica da criação. Ela é abrigo no período da gestação. É alimento no princípio de todas as vidas. Ela é prazer, calor, conforto de todos os seres humanos na superfície da terra.

Nas religiões bantu, todos os meios que produzem subsistência, riqueza e conforto como a água, a terra e o gado, são deificados, sacralizados. A mulher, mãe da vida e força da produção da riqueza, é amaldiçoada. Quando uma grande desgraça recai na comunidade sob a forma de seca, epidemias, guerra, as mulheres são severamente punidas e consideradas as maiores infractoras dos princípios religiosos da tribo pelas seguintes razões: são os ventres delas que geram feiticeiros, as prostitutas, os assassinos e os violadores de normas. Porque é o sangue podre das suas menstruações, dos seus abortos, dos seus nado-mortos que infertiliza a terra, polui os rios, afasta as nuvens e causa epidemias, atrai inimigos e todas as catástrofes.

Em Moçambique, o povo tsonga celebra o mbelele quando a comunidade é afectada por uma grande seca. Antes de decidir a realização do magno ritual, os homens castigam as mulheres. Fazem preces para os deuses do pai e da mãe. Falham. Os reis e os sacerdotes fazem preces aos deuses do clã ou da tribo. Falham. Recorrem de novo à mulher porque reconhecem nela a fertilidade e sobrevivência do mundo. No mbelele, elas correm nuas de baixo do sol revolvendo sepulturas, purificando a terra, gritando, cantando para que as nuvens escutem. Só a nudez da mulher que quebra o silêncio dos deuses e das nuvens porque ela é a mãe do universo.

Nós, mulheres, somos oprimidas pela condição humana do nosso sexo, pelo meio social, pelas idéias fatalistas que regem as áreas mais conservadoras da sociedade. Dentro de mim, qualquer coisa me faz pensar que a nossa sorte seria diferente se Deus fosse mulher. Mas como é que seria o mundo se Deus fosse mulher? A ordem da vida estaria invertida? As escalas de valores seriam diferentes? A justiça e o amor seriam colocados a favor da promoção da felicidade humana? Nessa sociedade, o que teria mais valor: a vaidade característica da mulher, o dinheiro, ou o talento, a vontade e a força de construir? Qual seria o poder mais forte: o material ou o espiritual? É difícil responder a esta pergunta. Mas tentemos dar voltas à cabeça, imaginemos e busquemos a resposta a esta fantasia na realidade que nos rodeia. Olhemos para o passado e presente. A história humana tem mulheres que atingiram as esferas mais altas da sociedade. Ao longo dos séculos, houve rainhas, imperatrizes, embaixadoras, ministras. A maior parte dessas mulheres revelaram-se mais preparadas para a ganância e para a vaidade. Exprimiram até ao exagero o seu gosto pela grandeza. Nunca usaram o seu poder para melhorarem as condições de vida do seu povo. Ficaram felizes com as suas altas posições e não fizeram nenhuma concessão a favor da mulher. A rainha Cleópatra fornece-nos um bom exemplo. Diz-se que dirigiu o seu país com força de ferro; diz-se ainda que foi uma grande general. Fala-se ainda hoje das suas fraquezas. Preocupou-se muito com os seus vinhos, com as suas pérolas, com a ponta do seu nariz e com a beleza que muito enlouqueceu os generais romanos. Da condição social das mulheres do seu povo, Cleópatra não se lembrou nunca. Em conclusão poderei dizer que são muito poucas as mulheres que, estando no poder, se preocupam com os problemas de outras mulheres.

Se acreditamos na ideia de que o homem é a imagem de Deus, podemos também imaginar que a rainha é a imagem de deusa. Valerá a pena alimentar a ilusão de que o mundo seria diferente e melhor se Deus fosse uma mulher? Penso que não. A história mostra-nos que não basta ser mulher para ser justa. A questão é muito mais profunda.

Estas minhas divagações servem-me apenas de estímulo. Com elas pretendo encontrar a força para enfrentar a dura realidade que me cerca. Sei que devo modificar o ambiente pela força de meu espírito por que às preces aos deuses homens e aos deuses mulheres, quer sejam feitas em voz alta ou silenciosa, as únicas respostas que se obtêm são silêncio absoluto. Nesta minha batalha por sobrevivência digna vou ganhando mais luz e mais força. Cada dia cresce a minha experiência e mais claras se tornam minhas reflexões sobre a vida e sobre o mundo. Pretendo revelar um pouco desta experiência sem falsidade nem superficialização, para quebrar o silêncio, para comunicar-me, para apelar à solidariedade e encorajamento das outras mulheres ou homens que acreditam que se pode construir um mundo melhor.

Na etnia Tsonga (minha etnia) quando uma rapariga nasce, a família e os amigos saúdam a recém-nascida dizendo: hoyo-hoyo mati (bem vindo a água), atinguene tipondo (que entre o dinheiro), hoyo-hoyo tiho-mo (bem vindo o gado). O nascimento de uma rapariga significa mais uma força de ajuda a transportar água, mais dinheiro ou gado cobrado pelo lobolo.

Na infância a rapariga brinca à mamã ou a cozinheira, imitando as tarefas da mãe. São momentos muito felizes, os mais felizes da vida da mulher tsonga. Mal vê a primeira menstruação é entregue a marido por vezes velho, polígamo e desdentado. À mulher não são permitidos sonhos nem desejos. A única carreira que lhe é destinada é casar e ter filhos.

Foi neste ambiente que eu nasci, numa família de pai, mãe e oito filhos. Pertenço a uma família pequena comparada com as restantes onde havia duas ou mais esposas. Como me tornei escritora? É algo que não sei responder. Apenas posso dizer que a escrita escolheu-me, da mesma forma que a natureza me tornou mulher. Posso confirmar que a minha vivência também contribuiu para conduzir-me a este caminho.

As minhas memórias mais remotas são das noites frias à volta da lareira, ouvindo histórias da avó materna. Nas histórias onde havia mulheres, elas eram de dois tipos: uma com boas qualidades, bondosa, submissa, obediente, não feiticeira. Outra era má, feiticeira, rebelde, desobediente, preguiçosa. A primeira era recompensada com um casamento feliz e cheio de filhos; a última era repudiada pelo marido, ou ficava estéril e solteirona.

Acompanhava todos os passos da minha mãe. No rio, enquanto me banhava, a minha mãe cantava e lavava roupas e mágoas. As outras mulheresfaziam o coro. Estas cantigas umas vezes eram suspiros e outras murmúrios de angústia. Já em casa ouvia as cantigas de pilar milho e as de pilar amendoim. Eram todas tristes. O que consegui observar é que os homens ouviam-nas com total indiferença. Em momento nenhum da minha vida me recordo de ter ouvido, da boca de um rapaz ou de um homem, estas cantigas de mulher.

Aos seis anos de idade abandonei o campo com meus pais e fomos viver no subúrbio da cidade. Entrei na escola católica. Apesar das grandes diferenças na educação da casa e da escola, encontrei harmonia na matéria que dizia respeito ao lugar da mulher na vida e no mundo. A educação tradicional ensina a mulher a guardar a casa e a guardar-se para pertencer a um só homem. A escola também ensinava a obediência e a submissão e preparava as raparigas para serem boas donas de casa, de acordo com o princípio cristão.

Nas ruas do subúrbio sentia imensas saudades da vida livre e dos passeios nos campos. Para matar a saudade passava o tempo desenhando paisagens na tentativa de restaurar o paraíso perdido da primeira infância. Já adolescente, sonhei em tornar-me pintora. A família disse que não. A escola disse que não. A sociedade também disse que não. Porque não é bom para uma mulher. Porque pintura é arte e o artista é marginal. Eu estava a ser educada para ser uma boa mãe e esposa. Recalcaram o meu sonho e não o fizeram por mal, queriam apenas proteger-me porque se preocupavam com o meu destino. Deixei de pintar paisagens. Nas horas vagas, divertia-me tentando descrever as mesmas paisagens, realizando de forma alternativa o sonho da pintura. Foi assim que penetrei nos caminhos traçados por Deus e pelos homens.

Mas, por outro lado, o livro exercia sobre mim um efeito mágico. Em toda a minha adolescência, viajei pelo mundo do Oeste, idolatrei os heróis como Kit Carson, Búfalo Bill. Foi com a literatura marginal que entrei no mundo da leitura porque o meu meio social não tinha acesso a bibliotecas nem centros de cultura. Só no segundo nível de ensino secundário é que consegui tomar contacto com a verdadeira literatura.

À medida que ia crescendo, ia contemplando os fundamentos da existência humana, cada dia com maior profundidade. Observava o labor dos seres humanos, o seu sacrifício, os homens que morriam sem nunca terem conseguido realizar os seus sonhos. Encontrava uma grande contradição entre o mundo que me rodeava e o mundo que residia no meu íntimo. Senti necessidade de desabafar. Desabafar lavando nas águas do rio, como fazia a minha mãe, já não fazia parte do meu mundo. As cantigas na hora de pilar não eram suficientes para libertar a minha opressão e projectar a beleza do mundo que sonhava construir. Comecei a escrever as minhas reflexões.

Primeiro foram as frases soltas nos cantos dos cadernos. Depois foi o diário. A seguir foram os poemas e as cartas de amor no tempo da primeira paixão. Mais tarde foram textos mais seguros, pequenos contos, pequenas crônicas e o sonho de um dia escrever um livro. Este sonho adormeceu porque me casei e queria ser boa esposa. Mas a vida conjugal deu-me a provar as primeiras amarguras. Minha alma tornou-se uma muralha de solidão e silêncio. Olhei para mim e para outras mulheres. Percorri a trajectória do nosso ser, procurando o erro da nossa existência. Não encontrei nenhum. Reencontrei na escrita o preenchimento do vazio e incompreensão que se erguia à minha volta. A condição social da mulher inspirou-me e tornou-se meu tema. Coloquei no papel a aspirações da mulher no campo afectivo para que o mundo as veja, as conheça e reflita sobre elas. Se as próprias mulheres não gritam quando algo lhes dá amargura da forma como pensam e sentem, ninguém o fará da forma como elas desejam. Foi assim que surgiu a minha primeira obra, Balada de amor ao Vento, tornando-me deste modo uma das poucas escritoras do meu país.

Como é que a sociedade recebeu a notícia de que eu estava a escrever o meu livro? Primeiro com cepticismo e muito desprezo da parte dos homens. Muitas pessoas acreditavam e ainda acreditam que a mulher não é capaz de escrever mais do que poeminhas de amor e cantigas de embalar. Consideraram-me uma mulher frustrada, desesperada, destituída de razão. Foi um momento terrível para mim. Mas, por outro lado, estas atitudes tiveram um efeito positivo porque forçaram-me a demonstrar pela prática que as mulheres podem escrever e escrever bem. Devo confessar que nas condições da actual sociedade, se a mulher pretende um reconhecimento igual ao do seu parceiro masculino deve trabalhar duas ou três vezes mais. Do período que vai da escrita do livro até a sua publicação, entrei em contacto com homens de diversas instituições e que não me ajudaram em nada ou ajudaram muito pouco. Contudo, quase todos eles não se esqueceram de fazer-me propostas sexuais, convites de jantar, como condição necessária para a ajuda de que tanto necessitava. Mais tarde entrei na Associação dos Escritores. Mesmo ali a minha integração como mulher não se fez sem grandes esforços. 

Ainda hoje, a sociedade moderna considera os artistas como seus membros marginais. Ser mulher e ser artista torna-se um verdadeiro escândalo. Escândalo que tive que arriscar e suportar. Nesta sociedade a mulher só pode falar de amor e sexo com outras mulheres e também em segredo. Falar em voz alta é tabu, é imoral, é feio. No meu livro falo da vida, do amor e sexo. Com as minhas mãos accionei uma bomba sobre a minha cabeça. Uma boa parte das pessoas pensa que escrevi o amor porque o pratico em demasia. Outros consideram-me uma pessoa bastante entendida em matéria de amor e sexo e com vontade de contar experiências. As boas pessoas evitam a minha linguagem e o meu contacto que consideram nocivo e comprometedor.

Dois anos depois da publicação desta obra, ainda continuo a receber propostas de homens dos mais diversos quadrantes da esfera social. Querem conhecer-me de perto, apalpar-me, provar-me física e moralmente para entender melhor esta coisa de mulher escritora. Não lhes ligo importância nenhuma. Ignoro-os e continuo o meu caminho. A coisa mais gratificante no meio desta história foi a alegria e carinho com que a camada feminina me recebeu a mim e ao meu livro. Os jovens de ambos os sexos encorajam-me e pedem que escreva mais livros. Alguns até prometem que um dia serão escritores.

Sou mulher comprometida com diversas ocupações. Tenho o emprego, principal fonte de sustento. Tenho a casa e a família. E tenho o sonho da escrita por realizar. O trabalho da escrita é mais árduo e solitário. Para escrever é preciso planificar, arquitectar as idéias, investigar, ler e conversar. Como posso eu harmonizar todas estas ocupações? Falta-me tempo para tudo, é verdade. Mas o que devo fazer? Desistir dos meus sonhos? Quando o trabalho me aperta e as energias se esgotam, por vezes perco o ânimo, sim. Mas é nesses momentos que sinto uma mensagem dentro do peito reclamando uma publicação urgente. Também sinto que quando escrevo uma nova vida me invade. Viajo embalada na emoção do mundo que construo no pedaço de papel. A escrita consola-me, estimula-me, é a herança mais bela que Deus me legou, não, não posso desistir.

No fim da jornada de oito horas de trabalho regresso ao lar, muitas vezes exausta. Cuido da casa, da cozinha e das crianças. Quando todos dormem é que escrevo porque necessito de tranquilidade e silêncio. Consigo conciliar estas actividades porque imponho sobre mim uma disciplina religiosa. Mas por vezes falho. Nos momentos de criação literária alguns trabalhos ficam por fazer; a casa é mal arrumada e a comida fica à pressa. Não são poucas as vezes que a família reclama um pouco mais de atenção. Por vezes nem tenho tempo de cuidar da minha aparência e apareço na rua com um aspecto desastroso. Há momentos em que o trabalho me esgota tanto que na manhã seguinte tenho dificuldade em despertar. Chego tarde ao emprego com muita frequência, com os olhos avermelhados pelo trabalho nocturno. Alguns colegas chegaram a pensar que passava as noites em vícios e orgias. Mas isso foi ultrapassado. Eles entendem-me.

A escrita trouxe-me uma série de conflitos na esfera familiar. Raros são os casos de mulheres que seguem a carreira artística e que possuem uma família equilibrada. Esta é a minha situação e a minha luta. Com as minhas mãos, afasto pouco a pouco os obstáculos que me cercam e construo um novo caminho na esperança de que, num futuro não muito distante, as mulheres conquistarão maior compreensão e liberdade para a realização dos seus desejos. Devo dizer que não há nada de heroico na minha luta e, de resto, desfruto de todo o prazer que a escrita me proporciona.

Em Moçambique há uma guerra. A cidade da Matola onde eu vivo é alvo de confrontos entre as tropas governamentais e os rebeldes. Os estrondos das bombas fazem já parte do nosso ambiente nocturno. Vezes sem conta as balas estilhaçam os vidros da minha janela. Em cada noite a insegurança é absoluta. Na hora de dormir, a despedida, o desejo de uma boa noite tem um sentido verdadeiro, porque o novo amanhecer poderá não pertencer mais à nossa história. Por isso mesmo dou aos meus escritos um carácter de urgência. Não gostaria de morrer sem ter concluído a minha obra. Várias vezes fui obrigada a abandonar a inspiração porque na minha rua morriam homens em combate. Várias vezes abandonamos acasa interrompendo os meus escritos porque tinha que procurar abrigo, a guerra era quente. Vezes sem conta vi-me na obrigação de despertar a altas horas da madrugada e retomar o trabalho porque a essa hora é que os combates cessam.

Escrevi a minha primeira obra debaixo de estrondos e ameaças de morte. Publiquei-a. Escrevi a segunda debaixo do mesmo ambiente. Está no prelo. Trabalhar numa atmosfera de morte é minha forma de resistir. Ninguém tem o direito de interromper os meus sonhos.

Mesmo que a maldita guerra não termine, se a morte não me ceifar, escreverei o terceiro.

Depois de todas estas actividades, há uma interrogação que paira na minha mente: será que escrevendo cada dia mais livros, estou a contribuir para o desenvolvimento da mulher e da sociedade? Às vezes penso que não. Às vezes penso que sim. Porque em primeiro lugar, escrevendo realizo a minha ambição, o meu ego. Sinto que escrever livro não é tudo quanto basta. Sinto que a maior contribuição virá no dia em que conseguir lançar, na terra fértil, a semente da coragem e da vontade de vencer nos corações das mulheres que pertencem à geração do sofrimento. A minha maior re-alização virá no momento em que a planta brotar, no momento de vê-la crescer. Mesmo antes de vê-la florir, poderei já retirar-me da luta, repousar na sombra mais próxima, em paz e tranquilidade.>>

Texto retirado de ABRIL - Revista do Núcleo de Estudos de Literatura Portuguesa e Africana da UFF, Vol. 5, n° 10, Abril de 2013 acedido em https://periodicos.uff.br/revistaabril/article/view/29695/17236