sábado, 17 de dezembro de 2022

O cinema é o limite... | Revista

MAGAZINE DIGITAL ONLINE PNC * DEZEMBRO 2022

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O Cinema é o limite... é o novo magazine do Plano Nacional de Cinema.

A sua missão é estimular o gosto pela cultura do cinema junto das comunidades educativas. O número 0 que vos apresentamos marca um compasso de transição, porque olhamos para trás e assumimos matérias que já integravam o boletim anterior, mas seguimos em frente, revelando um novo conceito e linha editorial, num novo formato.
(In: Apresentação)

Aceda à revista aqui

sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

"O melhor presente de Natal" | Conto de Michael Morpurgo


O melhor presente de Natal do mundo


A todos quantos, de ambos os lados do conflito,
tomaram parte na trégua de Natal de 1914.

Vi-a numa loja de velharias em Bridport. Era uma escrivaninha de tampo corrediço, e o vendedor afirmava tratar-se de uma peça de carvalho do início do século XIX. Havia anos que procurava uma escrivaninha deste estilo, mas nunca tinha encontrado uma que pudesse comprar. Esta não estava em bom estado: a tampa mostrava várias rachadelas, uma das pernas estava mal consertada, e tinha partes queimadas.

Não era cara, e pensei que eu próprio poderia tentar restaurá-la. Seria um risco, um desafio, mas era a minha única oportunidade de possuir uma escrivaninha de tampo corrediço. Paguei o que o homem pediu, e levei-a para a minha oficina, na parte de trás da garagem. Comecei a restaurá-la na véspera de Natal, sobretudo devido à quantidade de visitas que tinha em casa. Faziam muito barulho e eu queria encontrar algum sossego.

Abri o tampo e puxei as gavetas. Cada uma delas anunciava um desafio maior do que eu tinha imaginado. O verniz estava a descascar um pouco por todo o lado: parecia que a peça tinha sido salva de um naufrágio. Era evidente que esta escrivaninha tinha atravessado fogo e água. A última gaveta estava empenada e tentei abri-la com cuidado. Mas os meus esforços não resultaram e tive de usar toda a força que pude. Bati-lhe com o punho e logo ela se abriu, revelando um compartimento secreto. Este continha uma pequena caixa de folha, com uma folha de papel pautada, na qual a mão trémula de alguém tinha escrito: “A última carta de Jim, recebida a 25 de Janeiro de 1915. Para ser enterrada comigo, quando eu morrer.”

Soube, logo que o fiz, que não deveria abrir a caixa, mas a curiosidade levou a melhor sobre os meus escrúpulos. Como sempre.

Dentro da caixa estava um envelope, endereçado a Mrs. Jim Macpherson, 12 Copper Beeches, Bridport, Dorset. 

Peguei na carta e abri-a. Estava escrita a lápis e datava de 26 de Dezembro de 1914.




Querida Connie



Escrevo-te, feliz, porque acaba de acontecer algo de maravilhoso que quero contar-te desde já. Ontem de manhã, encontrávamo-nos todos nas trincheiras. Era Dia de Natal e estava uma das manhãs mais bonitas que vira até então, tranquila e gelada como uma manhã de Natal deve ser. Gostava de poder dizer-te que fomos nós a ter a iniciativa. Mas a verdade, envergonho-me de to dizer, foi que os Alemães é que tomaram a iniciativa. Primeiro, alguém viu uma bandeira branca a ondular nas trincheiras do inimigo. Depois, alguém gritou:

— Feliz Natal! Feliz Natal!

Quando nos tínhamos recomposto da surpresa, alguns de nós retribuíram:

— Feliz Natal para vocês também!

Pensei que tudo ficaria por ali. Todos pensámos, aliás. Mas, de repente, vimos um deles, no seu sobretudo cinzento, a agitar uma bandeira branca.

— Não atirem, rapazes! — alguém gritou.

E logo vimos mais Alemães, uns a seguir aos outros, a aproximar-se da nossa trincheira.

— Mantenham-se em baixo — ordenei aos meus homens. — É uma armadilha.

Mas não era tal.

Um dos Alemães agitava uma garrafa no ar.

— É Dia de Natal. Temos cerveja e salsichas. Querem juntar-se a nós?

Por esta altura, já dezenas deles se dirigiam até nós, atravessando a terra de ninguém que nos separava. Nenhum deles transportava armas. O soldado Morris foi o primeiro a mexer-se.

— Vamos lá, rapazes! De que estamos à espera?

Ninguém conseguiu impedi-los. Eu era o oficial e devia ter travado tudo aquilo imediatamente. Mas nem sequer me ocorreu. Homens de ambos os lados, vestidos com sobretudos cinzentos ou com uniformes caqui, caminhavam em direcção uns aos outros, e eu era um deles. Fazia parte daquilo. No meio da guerra, celebrávamos a paz.

Não podes imaginar, querida Connie, o que senti, quando olhei, nos olhos, o oficial alemão que se aproximava de mim, com a mão estendida.

— O meu nome é Hans Wolf — disse, segurando a minha mão com firmeza e afabilidade. — Sou de Dusseldorf e toco violoncelo na orquestra da cidade. Feliz Natal!

— Sou o Capitão Jim Macpherson — respondi. — Sou professor em Dorset, no leste de Inglaterra. Feliz Natal para si, também!

— Dorset — repetiu. — Conheço muito bem esse lugar.

Partilhámos a minha ração de aguardente e a excelente salsicha dele. E falámos, falámos sem parar. O inglês dele era excelente, mas acontece que nunca tinha posto os pés em Dorset. Tudo o que sabia sobre Inglaterra tinha-o aprendido na escola e nos livros que lia em inglês. O seu escritor favorito era Thomas Hardy,e o seu livro preferido Far from the Madding Crowd. Naquela terra de ninguém, conversámos sobre Bathsheba, Gabriel Oak, Sergeant Troy e Dorset. Tinha mulher e um filho, com seis meses de idade. Enquanto olhava à minha volta, só via manchas de cor cinzenta e caqui a fumar, a rir, a comer e a beber. Hans Wolf e eu partilhámos o que restava do teu óptimo bolo de Natal. Segundo ele, o teu maçapão era o melhor que alguma vez provara. Concordei. Concordávamos em tudo, Connie, e ele era meu inimigo. Nunca houvera uma festa de Natal assim.

Alguém trouxe uma bola de futebol. Os sobretudos foram despidos e transformados em postes de balizas. O jogo começou. Hans Wolf e eu assistimos e encorajámos os jogadores, aplaudindo e batendo com os pés no chão, para afastarmos o frio. Houve um momento em que vi a nossa respiração misturar-se. Ele viu o mesmo e sorriu.

— Jim Macpherson — disse, passado um bocado — penso que é assim que esta guerra devia ser resolvida. Como um jogo de futebol. Ninguém morre num jogo de futebol. Ninguém fica órfão. Nenhuma mulher fica viúva.

— Prefiro o críquete — disse-lhe. — Assim, os Ingleses ganhariam.

Rimo-nos da minha piada e assistimos ambos ao jogo. Pena-me dizer que os Alemães ganharam 2-1. Mas Hans Wolf comentou, com generosidade, que o nosso golo fora mais bem marcado do que o deles.

Quando o jogo acabou, já há muito tinham desaparecido a cerveja, o bolo, a aguardente e as salsichas. Desejei felicidades a Hans e fiz votos de que voltasse a ver a família em breve, de que a guerra acabasse depressa, e de que todos regressássemos a casa sãos e salvos. Respondeu-me:

— Penso que é o que todos os soldados querem, sejam Alemães ou Ingleses. Tome cuidado consigo, Jim Macpherson. Nunca o esquecerei, nem esquecerei este momento.

Fez-me continência e afastou-se, devagar, como que involuntariamente. Virou-se para acenar, uma vez mais, e logo se transformou num elemento mais, entre as centenas de homens vestidos de cinzento, que regressavam às suas trincheiras.

Nessa noite, ouvimo-los entoar um belo cântico de Natal, Noite Feliz. Os nossos rapazes responderam com Enquanto os pastores observavam. Trocámos cânticos durante mais algum tempo e depois calámo-nos. Foi um momento de paz e boa vontade, que recordarei com carinho enquanto viver.


Querida Connie, no Natal do ano que vem, esta guerra não será mais do que uma recordação vaga e terrível. Sei, por tudo o que aconteceu hoje aqui, o quanto ambos os exércitos desejam a paz. Em breve estaremos de novo juntos, tenho a certeza. 

 O teu querido Jim




Dobrei a carta e coloquei-a de novo no envelope. Não contei a ninguém o meu achado: guardei para mim mesmo a vergonha da minha intrusão. Penso que foi este sentimento de culpa que me manteve toda a noite acordado. Na manhã seguinte, já sabia o que devia fazer. Apresentei uma desculpa qualquer e não fui à igreja com o resto da família. Guiei até Bridport, que ficava apenas a uns quilómetros dali. Perguntei a um rapaz, que passeava o cão, onde ficava a casa.

O número 12 não passava de uma concha vazia, com um telhado em ruínas e as janelas entaipadas. Toquei na casa ao lado e perguntei se sabiam o paradeiro de Mrs Macpherson. Um homem de idade, em pantufas, respondeu afirmativamente. Disse que era uma senhora amorosa, um pouco confusa, o que era normal, dado que tinha 101 anos. Estava em casa quando esta se incendiou. Ninguém sabia como o incêndio começara, mas pensavam que deveriam ter sido as velas. A senhora usava velas em vez de electricidade, porque achava que a electricidade era demasiado cara. O bombeiro tinha-a salvo a tempo. Agora vivia num lar chamado Burlington House, na estrada de Dorchester, do outro lado da cidade.

Encontrei Burlington House com facilidade. Havia serpentinas de papel no corredor e uma árvore de Natal iluminada estava montada num canto, com um anjinho no topo. Disse que era um amigo de Mrs. Macpherson e que viera trazer-lhe um presente de Natal. Podia ver, através da porta envidraçada da sala que estavam todos com chapéus de papel e a cantar Good King Wenceslas. A Directora também usava um chapéu e ficou contente por me ver. Até me ofereceu uma empada de carne picada. Depois conduziu-me ao quarto de Mrs. Macpherson.

— Mrs. Macpherson não está na sala com os outros, porque hoje sente-se bastante confusa. Não tem família e ninguém a visita. Tenho a certeza de que vai gostar muito de o ver.

Conduziu-me até uma estufa, cheia de cadeiras de palhinha e vasos com plantas, e deixou-me a sós com Mrs Macpherson. Esta encontrava-se sentada numa cadeira de rodas, com as mãos no regaço. O seu cabelo fino, branco e prateado, estava apanhado num rolo. Contemplava o jardim, absorta.

— Olá! — saudei.

Virou a cabeça e olhou-me com um olhar vago.

— Feliz Natal, Connie! — continuei. — Encontrei isto. Penso que é seu.

Enquanto eu falava, os olhos dela nunca se desviaram da minha cara. Abri a caixinha de folha e dei-lha. Os olhos dela iluminaram-se num reconhecimento do objecto e a sua face irradiou uma felicidade súbita. Falei-lhe da escrivaninha, de como a encontrara. Creio que não me ouviu. Ficou calada durante algum tempo, enquanto acariciava docemente a carta com os dedos.

De repente, pegou na minha mão. Tinha os olhos marejados de lágrimas.

— Bem me disseste que vinhas pelo Natal, querido. E eis-te aqui, o melhor presente de Natal do mundo. Vem para perto de mim e senta-te, meu querido Jim.

Sentei-me ao lado dela e beijou-me a face.

— Lia constantemente a tua carta. Era como se ouvisse a tua voz dentro da minha cabeça. Era uma maneira de sentir-te comigo. E agora estás mesmo. Agora que voltaste, podes ler a carta tu próprio. Queres lê-la? Só quero ouvir a tua voz de novo, Jim. Depois podemos tomar chá. Fiz-te um belo bolo de Natal em maçapão. Sei o quanto adoras maçapão.



Michael Morpurgo
The best Christmas present in the world
London, Egmont Books, 2004, 48 p.
ISBN: 9781405215183



A recordar as trincheiras daquele Natal de 1914 não podemos esquecer  as imagens atuais das trincheiras na Ucrânia em guerra. 


Que o espírito natalício invada o território ucraniano, bem como outros cenários de guerra.




FONTE:
MORPURGO, Michael; “The best Christmas presente in the world”, (Acedido em 16.12.2022) Disponível em https://www.voltimum.pt/sites/www.voltimum.pt/files/pdflibrary/08_o_melhor_presente_de_natal_do.pdf

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

Miúdos a votos 2022/2023
Livros candidatos



Já foram apurados os candidatos da sétima edição da iniciativa Miúdos a votos, organizada pela Visão Júnior e pela Rede de Bibliotecas Escolares. 

Este ano, mais de 30 000 alunos, do 1.º ciclo ao ensino secundário, participaram numa das etapas mais importantes deste projeto, ao nomearem o seu livro preferido. No total, foram mais de 6 000 os livros nomeados, no conjunto dos quatro ciclos, abrangendo uma grande variedade de estilos, géneros, temas e autores.

No entanto, apenas 20 livros em cada ciclo – os que foram nomeados mais vezes pelos alunos – vão a eleições. À semelhança dos anos anteriores, o processo de apuramento dos livros mais nomeados contou com o apoio técnico da Pordata.

Qualquer escola, pública ou privada, em Portugal ou no estrangeiro, ainda vai a tempo de se inscrever nesta iniciativa, mesmo que não tenha participado na fase de nomeação de livros. Para o efeito, basta preencher o respetivo formulário de recenseamento.

Durante a campanha eleitoral, que decorrerá entre 1 de fevereiro e 3 de março, os partidários de cada livro poderão defender as suas ideias publicamente, procurando convencer os colegas e amigos a votarem no seu candidato. A eleição terá lugar no dia 7 de março.

Em seguida apresentamos a lista dos livros que irão constar dos boletins de voto do ensino secundário:



Consulte e descarregue as listas dos livros que irão constar dos boletins de voto dos restantes ciclos de ensino:

1.º CEB

2.º CEB

3.º CEB


Participa. 

Conta com esta atividade no teu certificado.

Convence os teus pares a ler! 

quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

Jornal de Letras I Ainda Saramago


Disponível na Biblioteca para consulta


Jornal de Letras, Artes e Ideias - 16 a 29 de novembro 2022



Contém também: 

E agora Rafael Gallo - Prémio Saramago.

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

A frase também merece atenção | Artigo



Natalie Wexler explica-nos por que razão é importante insistir na escrita de frases complexas. É uma ajuda inestimável à compreensão de textos.



É possível que seja por estarem pouco habituados à estrutura complexa de muitas frases escritas que alguns alunos não conseguem compreender aquilo que leem. Ensiná-los a escrever frases complexas sobre o assunto que estão a estudar pode ser uma ajuda.

Tal como o investigador da leitura Timothy Shanahan salientou, há muita investigação científica sobre a forma como os alunos aprendem a decifrar cada palavra escrita, e também acerca da compreensão global do sentido de um texto, mas não tanto sobre a tal «frase à qual ninguém presta atenção». Ainda assim, a verdade é que problemas de discernimento das frases podem criar entraves à compreensão.

Mais recentemente, Shanahan debruçou-se sobre a investigação que existe. Talvez a questão se prenda mais, como o autor aponta, com o aumento súbito dos estudos sobre a frase nos últimos anos, mas algumas das publicações que Shanahan refere remontam à década de 80.

Apesar de não haver conclusões definitivas, Shanahan afirma que os dados são suficientes para os professores «avançarem com alguma prudência» no ensino da frase. O autor oferece uma série de recomendações para o fazer, mas apenas uma delas implica a escrita.

Isto é natural, porque Shanahan se concentrou no que já foi estudado. Tal como referimos antes, a escrita não tem sido analisada de forma muito ampla, sobretudo se o compararmos com a extensa investigação de que a leitura foi alvo. Além disso, fez-se muito pouca pesquisa sobre a aprendizagem da frase, e menos ainda sobre frases acerca do conteúdo curricular. Mas dado aquilo que sabemos sobre o funcionamento da mente humana, essa escassez de investigação não deveria impedir os professores de avançarem nessa direção. E não diria que tem de ser «com alguma prudência». Defendo que devem ir em frente.

Razões para o êxito da instrução ao nível da frase

Está comprovado que é mais fácil adquirir informação nova — aprender — quando se tem conhecimento prévio relevante. Na leitura, podemos saber à partida alguma coisa sobre o assunto do texto que estamos a ler, mas também importa a cultura geral, o vocabulário e o nosso entendimento sobre o modo de construção das frases, a sintaxe.

Em termos sintáticos, a linguagem escrita é por norma mais complexa do que a oral. Em particular quando os textos se tornam mais elaborados, começam a incluir construções como orações subordinadas, a voz passiva e uma maior distância entre o sujeito e o objeto (em vez de «O cão passou a correr pelo homem», podemos ter algo como «O cão com pelagem às manchas, castanha e branca, apesar de cansado de correr tanto, passou ainda assim a correr pelo homem de fato cinzento»). Mesmo que os alunos consigam entender conversas, ou até frases escritas em textos simples, podem ter dificuldades em interpretar o tipo de frases que surge muitas vezes em conteúdos escritos do ensino secundário ou nos jornais.

Há vários estudos que demostram que a compreensão de um texto é facilitada pelo domínio prévio do seu tema por parte dos leitores.

Isto pode acontecer mesmo que os estudantes já conheçam bem o assunto do texto. Há vários estudos que demostram que a compreensão de um texto é facilitada pelo domínio prévio do seu tema por parte dos leitores. Uma das investigações mais famosas nos Estados Unidos, conhecida como «o estudo do basebol», concluiu que na leitura de textos sobre este desporto, «leitores fracos» especialistas em basebol ultrapassaram «leitores bons» que não conheciam tão bem este desporto. Mas o excerto que lhes foi dado a ler era bastante simples: à exceção dos termos técnicos, tratava-se de uma descrição bastante clara de uma partida de basebol. Esses mesmos especialistas teriam certamente de se esforçar muito para conseguirem compreender uma tese de doutoramento sobre algum aspeto desse jogo.

Uma cientista que se tem vindo a debruçar sobre a frase, Cheryl Scott, partilhou num artigo o caso de um menino de dez anos que conseguia ler com propriedade e fluência, mas que tinha dificuldades em interpretar o que lia. O menino ouviu a leitura de um texto com a seguinte frase: «Rachel Carson, que era cientista, escritora e ecologista, cresceu na pequena cidade de Springdale, na Pensilvânia.» Os cientistas pediram depois à criança que lhes dissesse aquilo que tinha aprendido sobre Rachel Carson. «Elas cresceram juntas, na mesma cidade», respondeu ele. Para o menino, o sujeito da frase não era Rachel Carson, mas sim três pessoas diferentes: uma cientista, uma escritora e uma ecologista — porque estas palavras estavam mais próximas do verbo. Este tipo de erro não é incomum, como afirma Scott.

É óbvio que é importante conseguir identificar estes erros de interpretação. Podemos pedir aos alunos que expliquem, oralmente e por palavras deles, uma frase complexa que acabaram de ler ou que leiam a frase outra vez com uma entoação diferente — ambas práticas que Shanahan recomenda. Mas não seria ainda mais útil ensinar os alunos a construir frases complexas por si próprios? Se uma pessoa conseguir aprender a usar frases como a da descrição de Rachel Carson no exemplo anterior — em gramática chama-se um aposto[1] —, não estará mais bem preparada para conseguir interpretar uma frase semelhante quando a ler?

Exercícios de escrita e compreensão de frases

Shanahan recomenda dois exercícios de escrita: a junção e a redução de frases. O primeiro implica transformar várias frases simples numa frase mais complexa. A redução de frases faz o oposto.

Estes exercícios são úteis até certo ponto, mas é claro que, para conseguirem fazer uma boa junção de frases, os alunos precisam muitas vezes de instruções detalhadas sobre as palavras que podem usar: um aposto, por exemplo, ou uma conjunção subordinada como «embora». Há muitos alunos que não conseguem ganhar habilidade para usar este tipo de estruturas frásicas apenas através da leitura.

Quando escrevem sobre aquilo que estão a aprender, os estudantes reforçam tanto a compreensão como a memória.

Além disso, estas recomendações descuram a ligação entre a escrita e a aprendizagem. Vários estudos concluíram que, quando os estudantes escrevem sobre aquilo que estão a aprender, qualquer que seja o tema, reforçam tanto a compreensão como a memória. A ciência cognitiva explica porquê: um método muito eficaz de garantir que a informação é armazenada na nossa memória de longo prazo e que a conseguimos reaver mais tarde consiste em citá-la de cor e explicá-la a outra pessoa por palavras nossas. No fundo, isto é o que fazemos quando escrevemos.

Estudos sobre «escrever para aprender» poderão na verdade ter menosprezado os benefícios desta atividade porque, em termos gerais, não se debruçaram sobre a escrita ao nível da frase. Escrever é difícil, bem mais difícil do que ler, e escrever com pormenor é ainda mais difícil. É possível que os alunos tivessem mais capacidade cognitiva para compreender e reter informação se fossem orientados na escrita de frases curtas e isoladas sobre o tema.

Faria portanto sentido pedir aos alunos que se dediquem à junção e redução de frases sobre o conteúdo a aprender. Mas há outros exercícios sintáticos que podem ser ainda mais úteis à aprendizagem. Quando os estudantes juntam frases, ou as encurtam, as frases de que dispõem têm toda a informação de que precisam. Por exemplo, um exercício de junção de frases pode começar assim:

Rachel Carson foi cientista.
Rachel Carson foi escritora.
Rachel Carson foi ecologista.
Rachel Carson cresceu em Springdale, na Pensilvânia.

Um aluno seria capaz de juntar as frases anteriores para criar uma frase complexa, caso tivesse aprendido a usar o aposto: Rachel Carson, cientista, escritora e ecologista, cresceu em Springdale, na Pensilvânia.

E se, em alternativa — e depois de ter aprendido quem foi Rachel Carson — se desse ao aluno a seguinte frase para completar:

Rachel Carson, ____________________________________, cresceu em Springdale, na Pensilvânia.

Para o fazer, o aluno teria de recuperar informação da qual talvez já se tivesse esquecido e de encontrar vocabulário para a expressar, aumentando a probabilidade de compreender e de recordar essa mesma informação. Ao mesmo tempo, o aluno estaria a aprender uma construção frásica que reforça as suas capacidades de escrita e de leitura.

Este exercício de criação de frases integra, com muitos outros, um método chamado «A Revolução da Escrita». (Sou coautora de um livro com o mesmo título; o método foi desenvolvido pela outra autora, Judith C. Hochman.) Este método vai além das frases, propondo a criação de textos argumentativos, mas as práticas ao nível da frase são alicerces fundamentais para a escrita autónoma de segmentos mais extensos.

É bom ver um investigador da área da leitura com a influência de Shanahan a defender a ideia de que precisamos de dar mais atenção à frase. Tenho esperança de que este e outros autores reforcem tal interesse e se concentrem em temas que vão além da instrução da leitura, tais como a ligação crucial que existe entre a leitura e a escrita, a construção de conhecimento e o desenvolvimento de vocabulário. O progresso nestes temas possibilitam tanto a escrita como a leitura.

[1] Na terminologia gramatical adotada oficialmente, o aposto passou a designar-se por modificador de nome apositivo.

Fonte:
Teresa e Alexandre Soares dos Santos - Iniciativa Educação. A frase também merece atenção: crónica. (2022). 9 de dezembro de 2022. Acedido em https://www.iniciativaeducacao.org/pt/ed-on/artigos/cronicas/a-frase-tambem-merece-atencao

A importância do conhecimento prévio na leitura

Lemos para conhecer, ou conhecemos para ler?


À medida que aprendemos, conseguimos compreender cada vez melhor aquilo que lemos. Mas a leitura também aumenta o conhecimento. No episódio desta semana, a psicóloga da educação Irene Cadime ajuda-nos a esclarecer a importância e o papel do conhecimento prévio para a leitura.