terça-feira, 24 de setembro de 2013

Boca incompleta de António Ramos Rosa




Em 1977 António Ramos Rosa publica o livro de poemas intitulado Boca Incompleta, do qual a professora Alice Ramilho retirou a poesia que segue:

As palavras no centro vazio

Deixa as palavras caírem sobre o chão
vazias
 Talvez uma forma silenciosa
 se liberte
 talvez um gesto em chamas
 se levante

O pudor do toque sobre a página
 uma colina uma porosa
 lâmpada
 onde nada se passa

 a não ser talvez
a língua que se acende
 áspera e verde
 sobre a sombra
 sobre o vento

 Talvez o corpo se liberte
 das mandibulas dos insectos
 talvez um olho brilhe
 nas palavras entre as pedras

Deixa as palavras caírem sobre o muro
talvez elas caminhem
para a única
forma
de silêncio
verde

 Talvez elas repousem no espaço
 Talvez melhor do que o silêncio
 nesta folha
 digam o que o silêncio quer dizer


Deixa as palavras caírem sobre o centro vazio

 Talvez só a pálpebra de uma sombra
 ou um leve movimento da folhagem
 seja o breve sinal
 de ser
 ou de não ser


 Talvez o corpo se erga da sombra
 e do vazio da página
 cheio do silêncio
 da sua própria forma
 no simples esplendor do seu nascer

Deixa as palavras caminharem na sombra
em busca da sua própria boca
ávidas do corpo
entreaberto
trémulas como as folhas
de uma árvore

 Talvez nada se passe
 ou quase nada
 e isso seja o todo do que é
 que nunca é

A dança quase imóvel a palavra à beira do seu ser o
princípio de desejo que não cessa a chama do corpo
nas palavras

Ou a chama do silêncio
entre as palavras
que dizem
e não dizem o que são

O corpo livre enfim
 no seu começo
tudo o que no silêncio nasce
 e morre sem cessar Talvez
 renasça no poema Talvez
 recomece
 por nunca ser senão pelo desejo
 de um quase nada
 que é todo o seu ser

In: ROSA, António Ramos; Boca Incompleta; Lisboa: Arcádia, 1977, Com 102-VI pág.

Obra disponível para consulta e empréstimo domiciliário na Biblioteca Escolar.

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